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Ocasional



Ele fechou as cortinas. Agora o ambiente era iluminado de cima. A luz penetrava dando uma tonalidade ofuscante. Caminhou até a porta e trancou. Atravessou o salão e ligou o som. Agora estava pronto. A música inebriante era o que faltava.

Ela acordou, sentada na cama, prendeu o cabelo, procurou os chinelos e foi andando até a janela. Voltou. Abriu a porta do guarda roupa e mirando o espelho, ficou ali, pensativa.

Ele começou a modelar a argila. Mergulhado em pensamentos, foi moldando, contornando, dando a forma.

Ela olhou para a janela. Sorriu para o espelho e foi sentir a brisa da manhã. Sentia-se estranha, mas não sabia explicar. Sentia um vazio. Debruçada no parapeito, olhava a paisagem como quem quer se descobrir.

Ele se distraiu. Errou o compasse. O trabalho devia ser recomeçado. Desapontado com tamanho descuido, largou o avental e saiu do salão. Do lado de fora o frio era extenuante. Sentia-se cansado. Com as mãos na cintura ficou ali contemplando a paisagem outonal.

Ela gostava de ver as folhas secas, era sua estação. Soltou o cabelo e voltou para a cama. Ainda era cedo. Ficou mirando o teto, fechou os olhos e mergulhada em pensamentos, tentava desesperadamente descobrir a causa, o motivo da sensação de vazio.

Ele caminhou até uma árvore e sentou. Esticou as pernas e relaxou. Adormeceu e sonhou. Agora corria por entre as árvores, corria freneticamente até que deparou com um campo vasto. O terreno era elevado e ele continuou correndo. Foi subindo o elevado e quando chegou no alto pôde ver um cavalo bem de longe. Vinha galopando em sua direção. Não conseguia diferenciar pela distância, mas a pessoa domava bem o animal e com uma das mãos segurava o chapéu branco que deixava um pedaço de lenço do lado de fora.

Ela queria voltar a dormir e não conseguia. Levantou novamente e ligou o som, bem baixo. A música envolvia sua mente e ela ficou ouvindo a mesma música continuamente, na sua luta contra a sensação de ausência, de vazio, contra sua estranheza.

O cavalo se aproximava, mas a distância ainda era considerável. Ele quis avançar, mas não avançou. Preferiu ficar ali esperando. Estava perplexo, não sabia explicar, mas percebia que se sentia melhor agora. Melhor do que nunca. Foi se sentindo mais vivo à medida que o animal se aproximava. Ele finalmente poderia ver os traços de quem cavalgava. De quem era aquele chapéu branco, aquele cabelo. E então deu um passo à frente convicto de que estava preste a descobrir a pessoa. Então ele acordou.

Ela estava confusa.

Ele abriu os olhos. Deitado embaixo da árvore notou que havia perdido a noção do tempo. Ele não se lembrava do sonho. Voltou para o salão e retomou seu trabalho. Sorriu ao perceber que o som ainda estava ligado. A música continuamente. Dessa vez não erraria. Pegou o avental sobre a mesa e foi preparando a argila. Agora, mais concentrado, detalhava a sua obra.

Ela repensou sua vida, não sabia se estava feliz. De repente por impulso, aumentou todo o volume. A música agora dominava todo o aposento. Toda a casa. Ouvia-se de longe. Voltou a contemplar o espelho e olhando de soslaio para a janela foi se arrumar. Tirou a camisola e se vestiu. Ajeitou o cabelo e prendeu com seu lenço branco colocando seu chapéu por cima.

Seu trabalho estava pronto. O castelo com sua torre proeminente. Largou o avental e quando se dirigia para fora do salão, parou. Olhou para trás e fitou sua obra como quem sente que a perfeição ainda está um degrau acima. Foi então que descobriu do que se tratava. A torre do castelo não tinha janela. Deu meia volta e desenhou o detalhe, como estava sem avental acabou por se sujar. Mas agora sim, a obra estava completa. Foi então que desistiu de sair, preferiu ir a janela, a janela de verdade.

Ela caminhou até sua janela e ficou ali, estática, com uma mão no queixo apoiando a cabeça e a outra mão segurando o chapéu que deixava escapar um detalhe do lenço que prendia suas mechas.

Foi então que ele a viu. Na janela da frente. Imediatamente lembrara do sonho. Era ela? Era ela. Não havia campo ou cavalo, mas não restava dúvidas de que era ela.

Ela o viu. Não tivera o mesmo sonho, mas sentia que aquele vazio já não existia mais. Sentia-se feliz.

Sentiam-se completos.
Luiz Gonzaga
Enviado por Luiz Gonzaga em 19/08/2006
Código do texto: T220414
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Sobre o autor
Luiz Gonzaga
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 34 anos
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