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Um frango às cinco

 



                                               06.09.2005



Tem dias que começam sempre iguais. Levantar cedo. Levar criança na escola. Ir para o trabalho. Hoje é terça-feira. Setembro. Quente. Seco. A paisagem meio cinzenta. Muitas folhas pelo chão. Já é quase primavera. O país também caminha meio cor de chumbo. Uma crise política de estrelas vermelhas. Meio dor. Meio sangue. Meio tomate. Um momento meio. Meio até estranho. Verdades ao meio. Mentiras ao meio. Partidos ao meio. Mas a minha manhã começou em ponto. Às sete. Nem mais. Nem menos. Depois das mochilas e lancheiras, rumei à faculdade. As alunas à espera da aula de TIC's. O sono ainda se encostava em meu corpo. Nem banho gelado. Nem agenda cheia. Lá vinha ele amolescente, me perseguindo. Trânsito louco. Tocando em frente no rádio. Chego na sala, surpresa: uma palestrante no meu lugar! Todos os alunos do curso no auditório ouvindo sobre alfabetização. Ninguém me avisou. Lá estava eu. Meio professora, meio ouvinte, meio perdida. A coordenadora me dispensou. Voltei. Trânsito menos louco. No som o bêbado e a equilibrista. O dia prometia. Visitei uma amiga, um papo meio na pressa e voltei à realidade. Peguei a filha na escola. Engoli o almoço. Corri para a loja para bolar mais uma vitrine. Pensei em algo meio rústico. Meio renda. Meio bege. Meio branco. Na CPI do Congresso Nacional deputados meio cassados se defendendo meio pálidos. Meio confiantes. Meio exultantes. Eram três horas quando entrei no supermercado. Massas. Molhos. Arroz. Feijão. Biscoito. Leite condensado. Pipoca. Pizza, fiquei em dúvida. Um tanto comum. Congelada demais. Na esteira do caixa ao lado, uma mulher e dois frangos assados. Hummm. Cheirando quente o sabor da pele torrada. Moço, vá passando as compras. Volto já. Corri peguei um frango. Paguei tudo. Pedi que entregassem os volumes em domicílio. Entrei no carro. Trânsito calmo. A música era Cio da Terra. A tarde caía terrena. Fértil. Alaranjada. Cheguei às quatro e meia, com o assado nas mãos. Esse eu mesma quis levar. Assim como o pão e a manteiga. Abro a porta. Ninguém em casa. Com os desejos salivantes arranco o frango da sacola. Agarro suas asas e escuto. Purullummpurummpullurumm. Era o computador ligado desde cedo. O messenger apitando. Feito peru perto da ceia. Aquele desejo de comemorar. Em azul a janelinha piscava. Meu coração palpitava. Sento-me em frente à tela. Em arte surge alguém esperado. Teclo para um oi. Mordo a primeira asa. As palavras carinhosas começam a deslizar pelo monitor. O gosto do frango aplacando a vontade. A fome. Os dedos lambidos. Os olhos sorrindo. A outra asa me provocando. Parto pra cima dela como quem sonha acordado. Vou degustando palavras. Vou me deliciando com a pele. Às cinco da tarde. O mundo pára. A realidade apaga. Tudo que estava ao meio, inteiro fica. No meio desta crônica o entregador chega. Atendo. Volto. O frango partido. O Brasil também. A fantasia correndo. Nas asas, vou. Vôo. O dia não terminaria igual. Mas, quem disse que tudo tem que terminar igual...em pizza...ao meio...melhor devorar um frango assado às cinco da tarde em plena terça-feira...o verão está chegando...



Solange Pereira Pinto
Enviado por Solange Pereira Pinto em 22/08/2006
Código do texto: T222494
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Sobre a autora
Solange Pereira Pinto
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 49 anos
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Solange Pereira Pinto