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A ingenuidade



Como em todos os anos íamos eu, minha irmã Márcia, minha mãe Hena  passar as festas de final de ano com meu pai ( Betinho) na fazenda que fora de  meu avô. FAZENDA LARANJEIRAS ,que fica um pouco acima da região do Morro do Castelo. Lembro-me perfeitamente ... gostava muito mais das 12 horas rio acima no batelão do que as poucas horas de teco-teco .
Quando chegávamos na fazenda era sempre uma festa. Tia Laudelina tinha sempre um queijo fresquinho à nossa espera, Guti ( o ordenhador ) já sabia que queríamos antes de tudo o nosso leite quentinho tirado na hora, cheio de espuma para brincarmos quem ficava com o bigode mais bonito.  Dona Sebastiana preparava o “quebra-torto” , afinal não ia demorar muito e os peões chegariam da lida... todos tortos de fome... ( só mais tarde fui entender o porquê daquela deliciosa farofa de carne seca com um saboroso arroz carreteiro e café servidos às 8 horas da manhã eram chamados de “quebra-torto”. Os peões  saiam as 3 da madrugada para o campo e voltavam as 8 tortos de fome....
Mas eu gostava mesmo era do domingo na fazenda. Tínhamos o nosso churrasco desde as primeiras horas da manhã. Era a hora de eu ver a mágica do Gorão, um bugre analfabeto que nunca usara sapatos, nunca tirara fotografias, tinha medo do espelho e de gafanhotos. Mas já tinha arrancado as orelhas de uma novilha quando esta escapara do laço e ele pulou para dentro do curral segurando-a pelas orelhas, o bicho recuou com todas as suas forças e Gorão fez a mesma coisa até que as orelhas do animal saíram em suas mãos, mas o bugre não largou. Diziam os outros peões que uma boca-de-sapo picou Gorão no pé, mas ele nem sentiu e depois de sete dias encontraram a cobra seca. Essa cobra, contam os pantaneiros, que quando pica alguém ela fica por perto esperando sua vitima morrer, quando então o cadáver exala o cheiro de seu veneno e então ela sente ter cumprido seu papel e vai atrás de outra vitima, mas se isso não ocorre ela pica a si mesma e morre seca....
Os peões buscaram um animal que tivesse sido picado, mas encontraram mesmo foi o calcanhar de Gorão com mais de 10 centímetros de pele grossa  com uma das presas da cobra ainda nele.... os pés do homem eram tão grossos que quebrou a presa da cobra e ele nem dor sentiu....
Mas era a mágica de Gorão que me encantava. Ele pegava  umas pedras brancas pequenas... mais parecidas com restos de carvão que esteve em brasa e colocava na vala aberta na terra para o preparo da novilha no espeto. Ele dizia algo numa língua que eu nunca entendi e jogava água nas pedras que então incendiavam. Só então ele colocava gravetos e depois as pequenas toras de madeira. Depois do braseiro pronto, era a vez de colocarem os espetos.
Para mim aquilo era mágica! Gorão era um mágico! Como podia atear fogo com a água do  rio Paraguai ? Era mágica ...tinha que ser mágica....
A noite... no terreiro em frente à casa enquanto os peões se reuniam pra discutir a lida do dia seguinte, D. Sebastiana me contava sempre a mesma história :
O pantanal já foi mar , um mar chamado XARAES, os bugre são parente dos xaraes, por isso nós tem lagoa de mar aqui no pantanal, por isso nós tem camarão e nós tem a pedra do ouro negro. Lá na terra dos home de olho puxado é fraquinha, num é qui nem que a nossa, feita de rocha... então quando o mar vence o bem em argum lugar da terra, o inferno fica em festa e ele treme a terra e joga sua baba em forma de fogo pra fora. E faz novos morros que gospem fogo lá no Japão.... nós aqui no lado de baxo deles, nós pega o refruxo da pressão dos vulcão, e pra nós vem as pedra de fogo, elas vem disfarçada, mas os bugre conhece elas, só eles tem permissão de ateá fogo nelas....
Era uma historia deliciosa de ouvir. Eu imaginava tudo... visualizava tudo.... tremor de terra no Japão, vulcões jorrando lavas e nós aqui  recebendo o refluxo dessa pressão... Gorão era um bugre... ele sabia onde encontrar as tais pedras... e só ele podia tocar nelas sem se queimar. Tinha que estar com as mãos secas .... se estivessem suadas queimavam....
Perguntava a meu pai, e meus avós se aquilo era verdade , eles sempre me afirmaram que sim, mas até hoje não sei se para alimentar a minha fantasia de criança. A única coisa que sei é que vi as tais pedras. É que assisti o ritual feito por  Gorão... e muitas...muitas outras coisas que não quero e nunca vou esquecer.
Marluci Brasil
Enviado por Marluci Brasil em 26/08/2006
Código do texto: T225666
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Sobre a autora
Marluci Brasil
Corumbá - Mato Grosso do Sul - Brasil, 61 anos
60 textos (4679 leituras)
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Marluci Brasil