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Sobre máximas, provérbios e afins

"Nunca deixe para amanhã o que pode ser feito hoje"
ou
"Quem espera sempre alcança!"

"Mais vale um pássaro na mão do que dois voando"
ou
"Quem não arrisca não petisca"

Máximas, provérbios, aforismos, ditados... a nomenclatura usada importa muito pouco. Devemos conhecer, ao menos, umas dez figuras de retórica como essas e, na linguagem coloquial, as utilizamos com muita propriedade. No entanto, mesmo fazendo parte de nosso inconsciente coletivo, não se tem notícia de nenhuma investigação sistemática sobre a autoria e a origem desses pensamentos que, por falta de paternidade assumida, são considerados de domínio público, herança da famigerada sabedoria popular.

Via de regra, máximas, provérbios e afins, são recursos de autoridade extraídos da experiência cotidiana, a qual passa de geração para geração. A maioria desses conselhos é bem antiga e não se desgasta com o passar do tempo. Aliás, a atemporalidade os confere menor suscetibilidade a questionamentos; a longevidade, mais força e credibilidade. Com o intuito de atribuir importância ao que está sendo dito, costumamos empregá-los em nossa fala na tentativa de convencermos nosso interlocutor. Dessa forma, utilizando um provérbio como apoio, qualquer colocação nos é permitida. Mas, convenhamos, de acordo com o contexto, podemos usar a máxima que melhor nos aprouver, mesmo conhecendo outra que tenha significado oposto à realidade em que a primeira foi inserida.

Pedindo licença à Psicologia, eis uma possível explicação para o nosso comportamento. Como tendemos a nos isentar da responsabilidade das sequelas oriundas de nossas escolhas, ações e apatias, apelamos para o uso de máximas como maneira de suportar melhor nossas decisões. Isso porque nossos mecanismos psíquicos desenvolvem a destreza de escolher, de acordo com o momento, a máxima que melhor nos conforta. Necessitamos saber que outros já passaram por situação semelhante para nos sentirmos mais conformados. É por isso que aceitamos bem a empírica jurisprudência popular.

Um bom exemplo de destreza mental é "O que tiver de ser, será". Essa é até mesmo camaleônica porque pode ser usada em qualquer situação conflituosa. Serve como desculpa para que nenhuma atitude seja tomada em relação a algum problema emergente e também de justificativa para atitude oposta: quando atiramos para todos os lados e ficamos a espera do resultado. Coringa melhor, impossível!

Muitos aforismos ressoam como premonição ou profecia: "Os últimos serão os primeiros", "As coisas têm o momento certo para acontecer" e "Quem viver, verá". Quando apelamos para um desses, nossa intenção pode ser traduzida por "Minha apatia está além de minhas forças", o que não deixa de ser uma previsão do futuro, já que a inércia do presente desencadeia o resultado de amanhã.

Outra explicação cabível: como temos muitos sentimentos que moralmente nos envergonham, tendemos a maquiá-los para parecermos indivíduos mais virtuosos. Muitas vezes, a maquiagem usada é um provérbio. Fazemos isso porque precisamos nos eximir da emoção, e de sua conseqüente fealdade, para não decepcionarmos nós mesmos e, principalmente, os outros. Então, quando é dito que "Dinheiro não traz felicidade" a inveja está implícita. É fato que a felicidade não está intrinsecamente condicionada a bens materiais, porém é igualmente inegável que a falta de dinheiro traz uma infelicidade danada!

Há, ainda, aquelas que apelam para o divino: "O pouco com Deus é muito; o muito sem Deus é nada", "A justiça de Deus não falha" e "Deus ajuda a quem cedo madruga". Essas soam até como ameaça. De coisa divina ninguém duvida. Caso não sejam seguidas, o desobediente se sente sob prenúncio de uma temível desgraça eterna. Contra essas não há questionamento racional que sobreviva. Quem ousaria colocar em xeque argumentos tão poderosos? Afinal, estão em jogo duas autoridades: a sabedoria popular e a Força Suprema. Seria Deus e o povo contra um atrevido ateu questionador.

Contudo, é necessário reconhecer que algumas máximas são bem sábias. Não há exemplo melhor do que "Em boca fechada não entra mosquito", "Respeito é bom e conserva os dentes" e "Não se mete o nariz onde não é chamado". São conselhos bem saudáveis. Outras boas também são: "Uma mão lava a outra", remetendo à solidariedade; "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura", aludindo à persistência; "Quem muito quer, nada tem", lembrando da necessidade de fazer escolhas.

"Roupa suja se lava em casa" é mais que um conselho visando a etiqueta. É um apelo mesmo! Ninguém se sente à vontade ao presenciar baixarias dos outros.

E, por último, como forma de sintetizar algumas das observações anteriores (apelo ao divino, premonição...), um provérbio inquietante: "É preciso ver para crer". Esse parece zombar de nossa capacidade de discernimento. Ora, a carência de uma prova física - já que invoca nossa visão e só vemos coisa concreta, objetiva - descarta a necessidade de crença.  Segundo o dicionário Aurélio - esse sim é um argumento de autoridade! -, crença significa convicção íntima. Se é íntima, logo é pessoal, subjetiva e não necessita do testemunho de algo palpável. O sensato seria o oposto: "É preciso crer para ver". Sim, porque "A fé move montanhas".


Carmem Lúcia
Enviado por Carmem Lúcia em 17/05/2010
Reeditado em 17/05/2010
Código do texto: T2262022
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Sobre a autora
Carmem Lúcia
São Paulo - São Paulo - Brasil
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