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ON THE ROAD - I

Estamos ali diante da estátua de Albuquerque, vice-rei das Índias. É uma coluna muito alta e presumo que Albuquerque - ou Quezinho, para os íntimos - tenha sido muito importante mesmo. Mas para mim o mais importante é a nossa guia. Ela traduz tudo o que diz - ou pensa que diz - em cinco idiomas. E tudo tão rápido que às vezes me confundo. Entre os cinco, resulta um sexto idioma que talvez nem ela mesma entenda.
Sim, mas o que importa é Quezinho, o palácio onde viveram os reis, o Tejo, Alfama e tudo que faz de Lisboa uma cidade grande com jeito de província. E ela está muito diferente, desde a última vez que estive aqui, pois, pois. Lisboa se ufana toda, se prepara para a última exposição mundial deste século, a partir de março. Todos os países vão mostrar suas coisas bonitas aqui. Então a gente vê buracos e obras por toda a parte.
Não adianta. Vi novos túneis e avenidas, mas Lisboa sempre me faz lembrar aqueles romances trágicos de Eça. Diante do Beco da Judiaria fico pensando se Fernando Pessoa passou um dia por ele, incorporado em Alberto Caeiro ou Ricardo Reis. É um beco tenebroso, onde mal passa um, dois já é congestionamento.  Pelo menos Fernando não teria condições de cair - só pra frente ou pra trás - num daqueles seus pileques históricos.
Ontem comi bacalhau. Mas não pense que foi um simples bacalhau. Nada de salamaleques para turista ver, nada sofisticado. Meu amigo me fez entrar e sair por ruas e levou-me a uma casa portuguesa com certeza. Naquele restaurante minúsculo e simpático, fora do roteiro dos brasileiros - comi um bacalhau divino. Bebemos duas garrafas de vinho e terminamos tudo com quatro doses de cachaça envelhecida. Depois só me lembro que vaguei sozinho pelo Rossio como um zumbi.
Meu amigo foi o único que sorriu para mim em quatro dias. Pergunto para uma brasileira ao meu lado por que os portugueses são tão sérios. Aí ela diz: acho que eles são uma gente muito sofrida. Se fosse minha mãe, ela dizia logo: eu também sofri, mas vivo sorrindo, meu filho.
Falando em rir, ontem assisti a um documentário na TV. Quando eu estava lendo os créditos vi o nome: João Rolão Preto. Não agüentei. Como a gente pode ficar sério dessa maneira? Eu também quero ficar triste e sério, gente de Lisboa, mas vendo Rolão Preto na TV não dá. É demais. Imagino esse indivíduo vivendo no Brasil. Já pensou ele em alguma fila esperando ser atendido? “Próximo! Seu Rolão Preto, por favor!”. Chorando de tanto rir fui consultar a lista telefônica. Rolão e Preto existem, sim. São distintas famílias portuguesas. Que coisa.
Ri muito também quando estava flanando pelo Largo dos Jerônimos, perto do Mosteiro. Um carro bem pequeno bateu num outro grande e novinho em folha. Eu e alguns turistas ficamos aguardando o desfecho. A motorista da baratinha abriu a porta, ela baixa e gorducha. O carro novo estava estacionado em frente a uma loja de souvenirs. Então saiu de lá uma senhora alta e loira, correndo esbaforida:
- Teresinha!
- Margarida!
- Foste tu a bater no meu carro?
- Pois sim! Faz favor de desculpar!
- Não foi nada, não foi nada!
Acredita que as duas se abraçaram alegríssimas? Olhamos uns para os outros, incrédulos. Tive a sensação de estar participando de uma peça de Samuel Beckett. Mas tudo é possível. Por isso nunca tive coragem de perguntar por que existe aqui um sanduíche chamado prego no pão.
Bem, o meu vôo para Londres sai daqui a pouco. O garçom diz obrigadinho pela gorjeta,  a rapariga no check-in manda aguardar só mais um bocadinho, a senhora diz pro marido, “vamos, rapidinho” e eu digo pra Lisboa “adeusinho”.
Raimundo de Moraes
Enviado por Raimundo de Moraes em 06/06/2005
Reeditado em 19/07/2005
Código do texto: T22643

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Sobre o autor
Raimundo de Moraes
Recife - Pernambuco - Brasil
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Raimundo de Moraes