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AS FORMIGAS

       Há formigas invadindo a casa. Escarafuncham o encanamento elétrico, trilham azulejos, habitam um vaso, varrem a cozinha. Inócuos todos os conselhos: pó de café, pimenta, cravo e canela, alho, folhas de cinamomo. Inesperadamente, uma perninha vermelha assoma entre azulejos. Quase microscópicas e da cor das coisas, nem sempre posso vê-las. Se cochilo no sofá, percebo um estranho carinho. São formigas em revezamento quatro por quatro  correndo entre a orelha e a nuca.

Ontem, decidi pela coabitação harmônica. Deixei uma mescla de migalhas e açúcar na área de serviço. Elas entenderam a mensagem. Hospedaram-se num velho xaxim ao lado da lavarroupas. Formigas são especialistas em diplomacia.

Não fale de felicidade nos círculos literários. Demonstre bom gosto. Finais felizes afastam a crítica. Um romance premiável precisa ter homens e mulheres dilacerados. Finais felizes são contos de fada ou, no máximo, literatura infantil.

As ciências humanas não estudam felicidade. Salvo em alguma tendência marginal da psiquiatria ou da psicologia, a felicidade não doutora. Procuram-se leis naturais, causas e efeitos, verdades, fenômenos previsíveis e estatisticamente demonstráveis.

A religião tampouco deseja pessoas felizes. O homem precisa de salvação. Felicidade, no máximo, para depois da morte, se não abusar dos prazeres mundanos, é óbvio.

Por essas e outras eu e a felicidade vivemos um amor conturbado. Oscilo entre o ridículo e essas incessantes formiguinhas. Quando menos espero, brotam desesperadas num vão qualquer, galopam pela face. Despudoradas me desmentem entre os amigos das letras, colegas da universidade ou meus leitores crentes. Vexame certo.

Tranqüilizei-me porque alguns pensadores sérios, para além de livretos de auto-ajuda, andam escrevendo sobre. E todos defendem a mesma tese estarrecedora: o consumo é inversamente proporcional à felicidade. Comprove lendo “Felicidade” de Eduardo Giannetti, “A Filosofia e a Felicidade” do filósofo francês Philippe van den Bosch e “Choosing Simplicity"(Escolhendo a simplicidade) de Linda Breen Pierce.

Em outras palavras, a economia capitalista poderá entrar em colapso com a felicidade em massa. Se pessoas felizes não consomem, se o consumo é o azeite da máquina econômica, infelicidade e insatisfação são justas salvaguardas da humanidade. Sendo claro: ninguém está interessado na felicidade. Desestabilizadora, nociva, corrosiva. Sem consumo cai a produção, aumenta o desemprego,  estagna a ciência...Um caos.

Admiro as formigas ocupando a casa. Me acalmo quando se restringem à área de serviço. Estou no controle. Amanhã, desejarão uma bolacha recém lançada, um cereal novo com vitaminas, um suco exótico da Amazônia. Criarei novas estratégias.

As formigas, como a felicidade, são teimosas e invasivas. Explicam-se os conflitos. Sempre insatisfeitos, procuramos doçura em inéditas migalhas.

Penso felicidade mesmo tentando mantê-la em área restrita. Brota em frestas. Às vezes coincide com o reaparecimento das formigas, às vezes não. A literatura, a ciência e a religião têm coisas mais importantes por fazer. A economia põe e depõe governos, inicia e acaba guerras, financia bibliotecas e escritores, ergue os templos. O que não se pode fazer é, por causa da felicidade, acabar com tudo inadvertidamente. Não! Não! Não!

Alguns amigos me dizem “precisas desinfestar a casa o quanto antes”. Acho uma solução terrorista. Por ora.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 27/08/2006
Código do texto: T226544
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5112 leituras)
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