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MARADONA vs. PELÉ – A COMPARAÇÃO

        Essa comparação surgiu dos argentinos ao verem a genialidade de seu ídolo e da pouca valorização histórica dos brasileiros que não conhecem a história daquele que é a terceira maior marca do mundo (atrás de Coca-Cola e Mcdonalds) e um dos três nomes que a CNN não identifica quando aparece na TV (os outros são o presidente americano e o papa). O outro foi o maior gênio do futebol contemporâneo, então faremos a injusta comparação que virou moda entre o povo do Rio da Prata, mas mostraremos quão estúpida é essa tentativa.

Pelé começou sua carreira na base do Bauru Atlético Clube, o BAC, tendo seus times de base conhecidos como “baquinho”. Quando foi oferecido pro Noroeste, também de Bauru, conhecido pelo seu futebol viril, seus tutores com medo dele ser “quebrado” no outro time o levaram para o então atual Bi-Campeão paulista, O Santos Futebol Clube, aos 15 anos, que o favorecia por não ser na capital e que estava montando um time, que anos mais tarde iria entrar na história do futebol, e porque não na História Geral da Humanidade.

Já Maradona, vindo da paupérrima periferia platina, começou sua carreira no Argentino Juniors, lá permanecendo até os 18 anos, jogando quatro temporadas como profissional, desde os quinze anos, então se transferindo ao Boca Juniors, seu clube de coração. Foi vetado por Menotti, da seleção Argentina de 1978 (com 16 anos), que o considerou jovem demais, mas começou a ser convocado para a mesma no ano seguinte, não deixando mais de defendê-la até 1994.

Pelé, corinthiano na infância, nunca jogou no seu clube de coração, muito pelo contrário, sendo o maior algoz que já existiu do Corinthians, que ganhou apenas quatro partidas contra ele, porém se apaixonou pelo clube que defendia e nunca abandonou o seu time até encerrar a carreira em 1974, num empate em zero a zero contra (que coincidência!) o Corinthians, voltaria a jogar nos Estados Unidos pelo Cosmos de Nova Iorque, onde jogou até 1977 e transformou aquele país que até então nunca havia ouvido falar de futebol. Seu início, como profissional também foi aos 15 anos, porém com maior êxito, já que foi campeão paulista em sua segunda temporada e convocado para a Copa Rocco, torneio que ganhou fazendo gol contra a própria Argentina. Aos 17 anos foi campeão mundial pelo Brasil fazendo cinco gols na Copa, sendo dois na final (algo que Maradona nunca fez). Essa até 2002 seria a única Copa que um país ganharia fora de seu continente, tabu quebrado pelo próprio Brasil no Japão.

        Pelo Boca, Diego disputou apenas duas temporadas, ganhando seu primeiro título, o de campeão argentino de 1980/1981, ao ser vendido em meados de 1982, prometeu voltar a defender seu clube que coração, que de fato cumpriu. Após ser vendido para o Barcelona da Espanha, disputa a Copa nesse mesmo país. Mas não vai bem, visado e bem marcado perde duas partidas e termina sua participação contra o Brasil, numa agressão que acarretaria na sua expulsão. Disse: “Ninguém perdeu essa copa mais do que eu”. Disputa duas temporadas pelo Barcelona, onde só fez inimizades, polêmicas, gols bonitos, belas assistências, mas nenhum troféu. Só ao sair do Barça que inicia sua glória em 1984, pelo Napoli da Itália. Cidade pobre, fanática pelo seu clube (que tem as cores da bandeira Argentina), nunca havia ganhado nada, até a chegada de Maradona.

Nessa mesma idade Pelé, havia ganhado vários títulos inclusive dois torneios sul-americanos, duas Libertadores, duas taças intercontinentais (no Brasil valorizadas como Mundiais), quatro paulistas, quatro Taças Brasil (na época não existia o campeonato brasileiro), entre outros títulos.

Em Nápoles, Maradona virou rei. Avesso ao “politicamente correto”, colecionava polêmicas e discussões públicas. Em campo, sua perna esquerda demonstrava quem ele era. No Estádio San Paolo cada quinzena se apresentava um show a parte e o Napoli passa a disputar o Scuddetto da Itália. Foi convocado como herói para a Copa de 1986, no México.

Já Edson, continuava a ganhar títulos, colecionar jogadas históricas, excursões pelo mundo demonstrando o que na Europa ficou conhecido como “Balé do Futebol”. O esquadrão branco do Canal Um de Santos se demonstrava imbátil, conseguindo o Penta Campeonato da Taça Brasil, dois Tri Campeonatos Paulistas, o título de majestade soberana do esporte bretão. Colecionava fatos históricos, como ter expulsado um juiz num jogo na Colômbia (esse árbitro expulsou o rei, numa arbitragem tendenciosa, mas a torcida colombiana tinha pago ingresso para vê-lo, invadiu o campo, surrou o juiz, que teve de ser substituído e o jogo continuou com Pelé e outro juiz) e ter parado uma Guerra Civil na África (para uma exibição do Santos, foi negociado um Armistício para se ver o jogo do Santos, após o término do jogo a guerra continuou).Bi-campeão mundial em 62 com facilidade, na copa de 1966, na Inglaterra, o Brasil foi um fracasso soberano, mal planejado, mal escalado, mal treinado, enfrentou os europeus, adeptos do futebol-força (até então nunca havia se preocupado com preparo físico, fato que os europeus adotaram e pegaram o desorganizado Brasil de surpresa). A violência dos adversários deixou Pelé de fora do segundo jogo (1x3 Hungria) e no sacrifício no terceiro (1x3 Portugal), esse no qual saiu carregado devido a três “tesouras” seguidas. Anunciou que não disputaria mais copas após esse fiasco.

Já Maradona, aos 26 anos vivia o auge. Levou um aguerrido time argentino a ganhar aquela copa, só não fez chover naquelas montanhas mexicanas, pois o resto fez, até gol de mão. Fez gols nas partidas mais decisivas e quando não fez gol, ou puxou toda a marcação adversária pra si, ou fez assistências mágicas. Destaque para os dois gols contra a Bélgica, a assistência contra a Alemanha Ocidental na final (quando o jogo estava 2x2, sendo esse o gol do título) e o jogo contra a Inglaterra, mas esse merece um parágrafo à parte.

Havia uma rivalidade muito forte nesse jogo. Primeiro, porque o time da Inglaterra era o favorito, segundo porque a Argentina havia travado poucos anos antes uma guerra contra a própria, no qual perdeu as Ilhas Malvinas (Falklands para os ingleses) e foram humilhados nessa disputa. Havia um caráter de revanche e Maradona queria ganhar esse jogo, mesmo que fosse as últimas conseqüências, e foi. No primeiro gol ele levou três adversários com sua perna esquerda, mas o último espirrou a bola que iria até a mão do goleiro que saiu bem na bola, se não fosse um leve toque com a mão esquerda do homem, que desviou a bola para dentro do gol. Esse gol foi batizado pelo próprio como “La Mano de Dío”, um trocadilho, já que na Argentina ele era tratado por Deus. O segundo foi considerado o gol mais bonito da história das Copas. No qual, com a perna esquerda apenas, dribla somente nove adversários (!!!!) e leva a bola da sua intermediária até dentro do gol. Os ingleses ainda reduziram, mas já estava vingada a nação portenha.

Já Pelé, após o fiasco da Copa de 1966, continuou fazendo milagres. Ao contrário de nosso hermano, o sr. Nascimento era totalmente ambidestro, sendo impossível fechar o ângulo dele. Tinha um repertório infinito de dribles e uma facilidade enorme em dar “chapéus”. Como Maradona, tinha uma visão de enxadrista, jogando sempre com dois ou três lances pra frente pensado. Mas era perfeito em todos os fundamentos de um jogador de futebol, era uma vertigem vê-lo jogar. Em 1968, após marcar o milésimo gol da carreira decide voltar à seleção e se prepara como se fosse um juvenil. Com todos os recordes possíveis batidos aos 27 anos, Pelé tinha poucas metas no futebol e foi atrás delas. A principal era de se tornar o único jogador de futebol tri-campeão mundial, pois a seleção estava inteiramente renovada e ele se apresenta como o cérebro de um time de craques de ponta a ponta, excetuando o goleiro a seleção de 1970 era indiscutível do lateral direito ao ponta-esquerda.

Maradona chega ao auge: após a Copa, ganha a Itália, o Scuddetto, a Copa da Itália, a Copa da Uefa (único título internacional do Napoli até hoje) e em 1990/1991 novamente o scuddetto italiano. A dupla Careca e Maradona é até hoje considerada uma das melhores de todos os tempos... Nessa época começa o crepúsculo do deus. Avesso a diplomacia, conquista cada vez mais inimigos. E boatos de sua vida noturna começam a pipocar, em especial de seu constante uso de cocaína. Chega a Copa de 1990, a mais defensiva de todos os tempos, como os times de sua época, retranqueiros. Na copa faz algumas de suas jogadas geniais, inclusive a assistência que tirou o Brasil nas oitavas, mas sem o mesmo brilho de antes. E consegue deteriorar suas relações na Itália, na semifinal, ao pedir que a torcida napolitana apoiasse ele e não a seleção local. Pior que ele até conseguiu dividir o estádio, mas criou uma inimizade com o país que ele morava que sacramentou o fim de um ciclo naquele país. Perdeu aquela final, por 1x0 para a Alemanha reunificada, com o estádio inteiro torcendo pelos germânicos e tendo seu hino nacional, veementemente vaiado. Após a volta da Copa finalmente o antidoping acusa cocaína em seu sangue e é suspenso por 15 meses. Estava encerrado seu ciclo na Itália.

Pelé aos 29 anos atinge a consagração absoluta. Com a Copa mais perfeita de todos os tempos, o Brasil ganha todos os jogos e na final faz 4x1 na Itália, com uma assistência magistral de Pelé que “pisa” a bola para Carlos Alberto vir de trás para chutar, porém com um detalhe, sem olhar para trás. Pela primeira vez na história tenta fazer um gol do meio de campo, errando por milímetros, até hoje, quando se faz um gol do meio de campo se comenta que se fez o (único) “gol que Pelé não fez”. De volta apo Brasil mais um Campeonato Paulista, renova com o Santos por mais dois anos. Se despede da seleção em dois jogos no Maracanã e no Morumbi lotado em dois jogos onde torcida gritava “fica, fica, fica”. Em 1974 se despede do futebol com uma partida contra o Corinthians no Morumbi ajoelhado no meio do campo, aplaudido de pé pelas duas torcidas por 15 minutos. Volta a jogar pelo Cosmos de Nova Iorque meses depois, levando a paixão do futebol aos EUA, onde é campeão da Liga americana e finalmente se despede em 1977 definitivamente como o esportista mais importante de todos os tempos, num jogo em que joga metade do tempo com a camisa do Cosmos e a outra metade com a do Santos, marca um gol nesse jogo, contra o Santos (!!!) pelo Cosmos...

Já Maradona volta em 1991 pelo Sevilha da Espanha onde joga mal e faz só quatro gols nessa temporada. Se transfere para o Boca Juniors, cumprindo sua promessa de 10 anos atrás. Também sem o mesmo brilho, porém consolida sua imagem como patrimônio do Boca Juniors e dos pobres na Argentina. Joga duas temporadas e vai treinar o Newell´s Old Boys também de Buenos Aires, jogando também, também sem sucesso. Interessado em jogar a Copa de 1994, se prepara fisicamente e chega bem na Copa, fazendo duas excelentes exibições e colocando a Argentina como favorita à conquista da Taça, mas novamente há um antidoping no seu caminho. E fica suspenso por quatro meses e de forma melancólica encerra sua grande carreira.

Pelé sem jogar se notabiliza por gafes, negócios mal feitos, escândalos de corrupção, comentários sobre futebol esdrúxulos e uma lei mal feita que transformou os clubes brasileiros em fornecedores de matéria-prima para os clubes da Europa.

Maradona seguia seu drama de toxicômano e chegou a ficar em coma por dias. Sempre polêmico, continua sua arte de arrumar confusões. Faz diversas terapias até largar o vício e virar diretor de futebol do Boca. Vira também apresentador de TV.

E como diria um comentário do DVD sobre o Maradona: “Entre os dois, eu fico com os dois”. Mas eu acho o Maradona o melhor jogador de futebol de todos os tempos, porque Pelé não pode entrar numa lista dessas, ele não é simplesmente um jogador de futebol, é o resumo de tudo que pode ser feito nesse esporte. Parabéns Edson Arantes do Nascimento e Diego Armando Maradona pelo talento com os quais nasceram e mostraram aos arrogantes do Velho Continente, que se eles quiserem falar de futebol, deverão se guiar pela constelação do cruzeiro do sul para aprender como se faz...
Luiz F Ricas
Enviado por Luiz F Ricas em 27/08/2006
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Luiz F Ricas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 34 anos
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