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Frio interior

Amanheci mais leve. A noite de sono não fora suficiente para restaurar o cansaço dos membros, fruto do trabalho cansativo do dia anterior. Mas hoje o dia acordava melhor, e com ele surgia, aos poucos, uma névoa suave e esbranquiçada ao longe. Espero o ônibus. O inverno prolonga o tempo das coisas se espreguiçarem, assim até mesmo a luz do sol não importa em se demorar, fazendo tiritar os seres que pela sobrevivência enfrentam-se a cada santa e preguiçosa manhã. O ônibus demora. Os postes ainda estão acesos, fazendo tomar conta do asfalto gélido uma luz amarelada que insiste em fitar as criaturas, dando um aspecto da realidade pura e insubstituível. O singelo café com leite ronca no estômago, tornando-o um tanto mais quente. Nada como um morninho para arrancar a sonolência pesada que toma conta, aliada àquela sensação dos edredons. O sujeito ao lado murmura qualquer coisa para o companheiro. Quando um corpo se agita, ele se aquece facilmente. Porém, mais que o frio cortante que se estabelece, percebe-se ainda a presença de um frio mais dolorido, um frio interior que contagia mais que qualquer temperatura negativa... O medo de enfrentar barreiras.

Ninguém mais reclama da rotina diária de lutas. A vida nos ensina desde pequenos como vencer as guerras particulares: como andar sozinho na rua, como tratar os que sabem mais que nós, como se cuidar dos espertinhos, como preocupar-se com a aparência, já que conta tanto em uma entrevista para o tal emprego, como pegar o ônibus certo, ou ter paciência, quando o mesmo resolve atrasar-se um tanto mais numa manhã incerta... Nessas guerras estamos acostumados a aprender, assim nem sempre acertar. Nos acostumamos a errar, e depois da raiva instantânea, sempre vem a calmaria. Nem todos tomam a situação como a porta para a primeira bem-sucedida, mas independente dessa visão, assim pode ser considerada pelos que preferem acreditar numa conseqüência positiva.

Ao longe avisto os faróis já apagados, pois o sol já dissipa boa parte da neblina. Seus raios tomam conta do horizonte e começam a desempenhar o seu papel. Cubro os olhos ao olhar em sua direção, pois a claridade, assim como a realidade, é tão forte que não consigo enfrentá-la de cara limpa. Um sorriso toma formas em meu rosto, como que para despedir-me do brilho do dia. Logo mais, quando desembarcar em meu local-destino, meus afazeres simples, mas necessários tomarão conta de mim, de modo a poder respirar somente quando tomar a condução de volta. Porém, já não mais poderei esperar pela luz do sol, que há tempo foi recolher-se para dar lugar ao brilho do luar, este que amanhã ainda virá me saudar quando abrir os olhos para mais uma manhã gélida de espera pelo meu caminho, digno caminho, que tento aquecer com um olhar de amor, um olhar a mais do daqueles que enfrentam apenas barreiras mundanas. Acordo a cada dia com uma meta acesa dentro de mim, esta de ser mais que expectadora desse mundo. Alguns arriscam a dizer faiscante, já que o que nos dá orgulho de levantar a cada dia com mais motivação é a certeza de que posso ser melhor do que fui ontem. Para que apenas murmurar algumas palavras? Se aprendemos a enfrentar barreiras? Essas são as mais comuns, e ao mesmo tempo as mais difíceis de se vencer: a das relações com o próximo, pois tememos não ser aceitos por nosso modo de ser ou de ver a vida. Ninguém tem o mesmo ponto de vista, assim como o modo de enfrentar cada momento. Porém nos aprisionamos nesse medo, acomodados pela facilidade da estagnação no crescimento. Pois perdemos tempo, e tempo para sermos felizes.

Subo no ônibus. Uma senhora entra com dificuldade. Os dois sujeitos acomodam-se nos bancos da frente. Mesmo com os lábios roxos do frio, a distância entre os passageiros torna-se maior. E eu, por vezes rio-me dessas situações, exemplos vivos do medo que se sobrepõe pelas facilidades. Como já dizia um certo escritor, é a insustentável leveza do ser. Somente quando o fardo diminui é que percebemos o quanto sentimo-nos pesados. Quando negamos as barreiras, acomodando-nos por detrás dos muros pessoais, é que a sensação de isolamento toma conta de nós de tal forma que não conseguimos decifrar nossos problemas, que são justamente a acomodação àquilo que é indispensável: a comunicação com outro ser-humano, que promove nosso crescimento.

Ronca o motor, como que para despertar os que ainda dormem, os que ainda fingem não ver as reais necessidades. Conhece-te primeiro, para depois partilhar o que tens aí. Afinal, as lutas diárias são cansativas, mas de que valem a pena se não compartilhamos o que aprendemos com elas?
Bruna Sommer Farias
Enviado por Bruna Sommer Farias em 30/08/2006
Código do texto: T228829
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Sobre a autora
Bruna Sommer Farias
Teutônia - Rio Grande do Sul - Brasil
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Bruna Sommer Farias