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ORKUTEANDO

            ORKUTEANDO
à Natascha-menina

Quem tem entre 12 e 35 anos e não tem nem idéia do que seja esse meu título, provavelmente está morando fora do planeta terra nos últimos dois anos. O fenômeno Orkut, penso, veio vigoroso como veio a própria Internet, que apareceu no Brasil há quase dez anos. Fala-se do orkut em vários meios, em várias rodas, psicólogos e psiquiatras analisam demoradamente essa mais nova novidade virtual. Já li sobre o orkut em diversas revistas, todo mundo quer tentar entender o sucesso do site. Na última revista que li, de um shopping de São Paulo, há um perfil do dono do site, que chama-se Orkut alguma coisa, e é de algum país do oriente, perdoem-me mas não me lembro qual. Comenta-se que a grande maioria dos usuários do site são brasileiros, “Ora, e por que?”, “Porque os brasileiros tem um espírito gregário, querem a casa cheia, e por isso um site que incentiva amizades de todos os tipos os seduz tanto”, foram mais ou menos as palavras que encontrei nessa revista.
Gregária ou não, logo que me cadastrei no site, fiquei bastante fascinada e viciada. Todo santo dia precisava checar amigos e mensagens, e também ver se alguém tinha me adicionado como amigo. Pura loucura. Quem é suficientemente ocupado vê em breve que o Orkut faz com que se perca muito tempo de “vida útil”, já que é realmente viciante. Estamos a falar de voyerismo, não há quem não goste, quem disser que não gosta está mentindo. É que mais ou menos que nem salgadinho da Elma Chips, é impossível você ficar só um minuto: uma vez entrando, você quer fuçar páginas e mais páginas de fotos e vidas alheias, e acaba ficando no mínimo umas duas horas.
Bem, mas não foi só por ter pouco tempo livre que parei de orkuetar. O Orkut, por assim dizer, me deixou desapontada e triste. Explico. Lá, encontrei muitos velhos amigos e conhecidos. Foi muito bom rever alguns, falar com eles novamente. Apesar de que descobri algo muito interessante. A maior parte das pessoas que me enviaram mensagens, felizes por terem me reencontrado, apenas trocaram uma ou duas cartas comigo, para depois parar por completo. Por mais que você fique feliz em reencontrar um velho amigo, convenhamos, as suas vidas já estão tão distantes pelo tempo, que nada mais há em comum. Faz-se um clássico resumo de sua vida nos últimos cinco, dez ou quinze anos de separação, troca-se duas ou três mensangens e, pronto, acabou-se.
Tá, mas não foi exatamente isso que me deixou triste e desapontada. Agora vou contar. Uma amiga que eu não via há uns quinze anos, uma genial menina que conheci na época em que dançava ballet em minha terra natal, Porto Alegre, contactou-me no Orkut. Fiquei muito feliz em saber notícias dela. Menina inteligente, ótimo humor, uma graça, morena com brilhantes olhos negros, um sorriso cativante. Quando a conheci, eu tinha treze anos, e ela, acho que uns dez. Convivemos por uns três anos, sendo sempre colegas de ballet. Aprendemos muito de dança juntas. Aprendemos a subir na sapatilha de ponta (coisinha mais difícil!), a fazer piruetas com a ponta, compartilhamos das mesmas dores horríveis nos pés e nos joelhos, comentávamos passos, discutíamos a nossa “arte”.  Fizemos apresentações de dança a cada final de ano juntas: fomos camponesas, fomos holandesas, fomos nós mesmas, fomos felizes - voando pelo palco.
Ela era uma menina alegre, daquelas bem sapecas, que sempre falavam coisas engraçadas o tempo todo. Eu e minha irmã (que também dançava e certamente deve se lembrar de tudo isso) pegávamos sempre um ônibus para casa após as aulas de ballet, e lembro-me que a pequena Natascha (nome lindo, não? Nome de bailarina.), muito brincalhona, sempre, mas sempre mesmo, despedia-se de nós dizendo “Feliz Aniversário!”, “Feliz Páscoa!”, “Feliz Natal!”, “Feliz Ano Novo!” e outras felicitações, independentemente de aquele dia específico ser ou estar próximo das referidas datas! Isso pode parecer uma verdadeira loucura, mas aquilo era muito sincero, aquilo era autenticamente uma coisa dela, uma marca de alegria daquela guriazinha maravilhosa! Posso ainda vê-la de longe na beira da calçada, acenando pra nós já dentro do ônibus, ainda vestida com o uniforme de ballet, coque meio desgrenhado nos cabelos negros e muito lisos, sapatilhas na mão, sorriso maroto no rosto delicado... Coisas da memória, inexplicáveis brincadeiras que ela faz com a gente.
Mas e a Natascha então me surge através do Orkut no abençoado ano de 2004, mais ou menos quinze anos após o nosso último encontro, e me escreve uma simpática cartinha eletrônica, resumindo sua vida, contando coisas, tentando fazer ficar menor o tempo que nos separava. Parecia a mesma, pelas palavras: inteligente, esperta, bom-humor impecável! Então eu vi a foto dela no Orkut, uma mulher que deve ter hoje uns vinte e sete anos, os mesmos cabelos escuros e lisos, os olhos falantes e brilhantes, o sorriso que encanta à primeira vista. Mas, para mim, aquela não era ela. Não era a menina que conheci. Além disso, contava coisas sobre sua atual vida, ela hoje é uma advogada super bem sucedida, que mudou-se recentemente para Brasília para trabalhar no INCRA.  Essa vida de adulta não parecia combinar com a menininha de quem eu tanto gostava. Não que eu não goste dela hoje, não é isso, de maneira alguma. É que para mim ela ainda é aquela menina. Vai ser sempre aquela menina de coque e roupa de ballet. Não consigo associar a imagem dela de hoje com a antiga. E fiquei triste, porque eu queria que ela fosse sempre a menininha. O Orkut me atirou na cara uma mulher madura e cheia de responsabilidades que não é a pequena Natascha que conheci quando tinha treze anos. Pensei que teria sido diferente se tivéssemos, por exemplo, mantido contato por todos esses anos. Seria diferente, porque teríamos sempre nos falado, e eu iria aceitar sua mudança passo a passo, crescendo aos poucos, e não, puft, de menina brincalhona a mulher responsável em apenas alguns segundos. O problema foi que as duas se encontraram em minha mente ao mesmo tempo, e fiz uma tremenda confusão. Isso não me fez bem. Foi depois disso, desse choque entre passado e presente, que resolvi freqüentar muito menos o Orkut. Não estava preparada para isso.
Penso que algumas pessoas deveriam ficar para sempre apenas na memória. Ficar ali bonitinhas, preservadas do jeito que as vimos pela última vez. Não deveríamos nunca reencontrá-las, seja pela Internet ou pela vida afora. Precisamos de memória, e o Orkut acabou por destruir algumas das minhas melhores. Deixa meu passado em paz, por favor... Respeita os momentos bons das nossas vidas, não desfaz as puras imagens de maravilhosas pessoas que conhecemos um dia... Deixa meninas como a Natascha serem meninas para sempre, deixa? Pronto, decidi que hoje, sábado, céu aberto, vento fresco e Harry Conick Jr. tocando e cantando ao fundo, vou deixar para sempre o Orkut, antes que ele me deixe... Maluca.
Clarice Casado
Enviado por Clarice Casado em 24/01/2005
Código do texto: T2290
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Sobre a autora
Clarice Casado
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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