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A viagem de trem a Teresópolis.

AS NUVENS DO CÉU DE TERESÓPOLIS
 
CAP. I   A viagem de trem a Teresópolis.

São quatro horas da madrugada. Já fui acordado e senti aquela sensação horrível, enauseada, da criança que se levanta muito cedo, bem antes da hora, mas, a excitação e a alegria são maiores do que qualquer dor. Hoje é o grande dia ansiosamente esperado das férias de verão. É o primeiro dia de um fevereiro do início dos anos cinqüenta e tenho, ainda, muitos dias para desfrutar na minha querida e maravilhosa cidade serrana.
         Belisco-me para ver se é mesmo real ou apenas mais um dos meus muitos sonhos sonhados no ano que passou já saturado de tantas praias e de tanto calor. Bobi, meu irmão caçula, faz o mesmo e ambos nos beliscamos para termos certeza e finalmente, pulamos da cama e exultamos de alegria: é mesmo real!
Mamãe, papai e o Roni, meu irmão mais velho, já estão arrumando as coisas. Este sempre cumpre bem o seu papel, é tão organizado quanto ansioso e quer ver tudo em ordem; que nada dê errado e principalmente, que não nos atrasemos e percamos o trem. Ele quase não dormiu à noite e há muito já acordou o Manoel, lá na casa da vovó, para fazer a fila na estação e comprar as passagens do trem, pois, certamente, vamos chegar em cima da hora.
A gente se veste sozinhos, apesar da pouca idade e muito ra pidamente, apenas um calção, uma camiseta fina e talvez uma alpargata nova, pois faz um verão muito quente no Rio e o dia promete.
Olho da varanda e vejo uma meia lua e as estrelas que   brilham no céu de Copacabana. Impera o silêncio, nem o barulho dos bondes que logo passarão; somente o chiado da bóia d’água defeituosa, bem em frente, tentando ainda encher a caixa do “Clube Lisboa”.
O trem parte às seis e a longa viagem, desde a nossa casa até Terê deve durar, com os atrasos habituais, as mesmas seis horas. Precisamos nos apressar, tomar café, mas cadê a empregada?
Ela ainda está na cama e rola de dor nas costas, na altura dos rins... ou "das cadeiras", como se expressa.
Papai deu uns comprimidos de analgésico, mas que nada, nem alivia e o Roni já está muito nervoso, uma fera pra dizer a verdade.
Eu e o Bobi ficamos olhando toda a cena calados, perplexos, sem bem entender o que se passa e meio que desapontados pelo quadro que se desenrola e promete acabar mal; não para a empregada, é claro, mas para nós que vamos perder o trem.
Que dor mais estranha, logo naquele dia? Que azar, penso eu, e  começo a ficar com aquela raiva egoísta de criança, contra a pobre doméstica e de toda a situação.
De repente, papai aparece com a famosa caixa metálica de injeções, da qual tenho más recordações, e sei, precisa ser toda fervida, o que nos fará perder ainda mais tempo.
Por sorte, o pai do Totonho, nosso amigo de infância, já está lá em baixo, estacionado, atravancando a estreita travessa com o seu taxi: um reluzente “chevrolet” preto de pneus banda branca do início dos anos quarenta.
Finalmente, a dor da pedra cede com a injeção e descemos as escadas. São quatro lances ao todo até a rua e umas onze malas, fora as inúmeras sacolas, inclusive as do lanche para ser comido no trem e, de quebra, dois grandes guarda-chuvas, mas não sei como, cabem todos no carro, passageiros e malas, incluindo a empregada.
Logo estamos no “Túnel Velho”, de teto muito alto e paredes sujas e encrespadas, com suas grandes luminárias dependuradas e os trilhos dos bondes salientes e em mão dupla, por onde o motorista teima em trilhar, patinando as quatro rodas do taxi na curva à saída,  em frente ao cemitério que sempre me dá arrepios.
 Praia de Botafogo, os postes iluminando a Avenida Beira-Mar com suas luzes pálido-amareladas, depois a infindável Praia do Flamengo sem o aterro, mas com a igrejinha da Glória; uma glória, linda de morrer ao sol nascente!  Finalmente, adormeço no embalo do ronco do motor e também com a ajuda dos "grilos'' da velha carroceria bem amaciada do chevrolet, para só acordar no nosso destino: a “Estação Ferroviária da Leopoldina”, ainda com todo o seu charme.
O pequeno trem já está lá, parado, perfilado. Os cinco vagões de passageiros e um de carga de uma madeira marrom meio que avermelhada com suas grandes janelas, através das quais se vêm altas poltronas forradas, esverdeadas e bem lá na frente, ela, a incrível "Maria Fumaça", imóvel, soltando apenas um vaporzinho pelas laterais, semelhante a um touro negro gigante,  bufando e aguardando ansioso pelo ataque.
Acomodamo-nos rápido, o melhor que podemos: malas e bolsas juntas nas prateleiras, nas redes dos bagageiros e outras ainda atrapalhando a passagem no meio do corredor. E eu e meus irmãos sempre junto às janelas, meio que alheios a tudo, só aguardando pelo grande momento da partida em respeitoso silêncio e olhando, fixamente, as mariposas que teimam em voar ao redor das pequenas lâmpadas do teto abaulado do vagão.
Repentinamente, ouve-se um longo e forte apito, porém breve e suave aos meus ouvidos e, após um leve solavanco, lá vamos nós bem devagarinho, saindo da velha estação.
Primeiramente, os últimos emaranhados dos cruzamentos dos trilhos ao largo, logo à saída da gare, com aquela confusa miscelânea de sinais luminosos, uns altos, outros baixinhos; ora vermelhos, ora amarelos, ora verdes; ora com as três cores juntas acesas.  Depois, com as linhas já estreitando, as casinhas de subúrbio que vão surgindo e passam juntamente com os altos postes e seus fios dançantes, cujas barrigas sobem e descem à medida em que o trem passa: tata, tá-tá; tata, tátá; tata, tátá, tata, tátá... ecoa o som metálico do estalo das rodas de aço no encontro com o espaço formado entre a união dos trilhos nos dormentes.
O dia já vai claro e nas raras curvas eu bem que tento esticar o pescoço, mas mal consigo vê-la de relance: ela, imponente, deslumbrante, apitando e resfolegando o vapor com seus braços possantes e soltando rolos de fumaça branca pelo céu de um azul ainda pálido, que traz algumas fagulhas até nós.  Que cheiro bom do carvão queimado misturado ao ar ainda leve e fresco da manhã!
Logo a viagem desenrola tranqüila, sonolenta e monótona na baixada, mas promete mais adiante.  Faz um calor infernal e em duas horas chegamos a Guapimirim ao pé da grande montanha, onde a composição é obrigada a se decompor para subir a serra íngreme com seus  trilhos de bitola estreita com as cremalheiras no meio.
As locomotivas do plano são então trocadas, depois de intrincadas manobras, por outras diferentes e importadas da Suíça. Estas são engatadas, aos solavancos, atrás dos vagões já separados e  bebem litros d’água através de uma grossa mangueira ligada a uma enorme pipa redonda ante o olhar atônito das crianças e dos adultos. Ao final, como num passe de mágica, o trem se transforma em três novas composições, cada qual com dois vagões e uma locomotiva de força.
O espetáculo vai começar! Ouvem-se ainda os últimos gritos dos moleques tentando vender seus derradeiros produtos dentro e fora do trem: "olha a banana prata; a banana ouro! Olha o amendoim torradinho! Marmelada, goiabada; olha a cocada"!
Finalmente, após um apito curto e falhado da possante máquina, começamos a subir a famosa "Serra dos Orgãos".
A locomotiva de serra fica agora por trás dos dois vagões, empurrando os mesmos e a sensação é ainda suave, como na subida inicial de um pequeno morro.  Assim que atingimos alguma altitude, a temperatura começa a cair devido também à proximidade da exuberante mata atlântica e para alívio dos passageiros.
O trem range e sobe devagar, logo alcançando os primeiros pontilhões, com suas grotas fundas por onde correm riachos de águas cristalinas.  O ar quente e pesado da baixada vai rapidamente, cedendo lugar ao ar fresco e gostoso da mata úmida que invade minhas narinas, e as grandes rochas encravadas no solo parecem vir ao meu encontro, mas passam sempre rente à grande janela de onde,  apesar do olhar severo de meu pai, às vezes arrisco-me a tocá-las rapidamente com a ponta dos dedos.
E lá vamos nós, cada vez mais devagar e cada vez mais para frente e para trás à medida que o aclive aumenta, apreciando, mais e mais, do alto, a exuberante paisagem que se descortina, alternando-se de um lado para o outro nas janelas dos vagões ante o olhar extasiado dos passageiros.
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Naquele tempo, ouviam-se ainda as exclamações de júbilo das pessoas, que chegavam a se levantar das poltronas para melhor apreciar a beleza dos cenários do outro lado das janelas do vagão
        Após no mínimo uma hora de subida e já a meio caminho do topo, a inclinação da serra aumentava ainda mais, juntamente com a beleza da paisagem que incluía, além da Baía de Guanabara lá embaixo, um enorme Dedo de Deus bem acima de nós.
       Então, de tão lento, o trem parecia que ia parar, embora a locomotiva resfolegasse bem em cima de nossos cangotes, pois as poltronas com seus passageiros ficavam com tal inclinação que, apesar da impulsão da possante máquina, davam a impressão de quase estar paradas, indo cada vez mais, pra frente e pra trás; pra frente e pra trás; pra frente e pra trás...
Uma hora ainda se passava de muita fuligem e incontáveis e incríveis vistas alternando-se com as curvas de um lado para o outro.  Agora, já seguindo o mesmo traçado da atual rodovia, chegávamos ao cume da serra no largo e descampado platô de manobras da denominada "Vista Soberba," para novamente trocar as máquinas, colocar água e recompor a composição inicial de seis vagões.
 Minha emoção aumentava, era o assalto final! Composição toda refeita, já correndo livre e solta ao lado da Granja Comary em direção à estação do Alto de Teresópolis e passando pelo Parque Nacional, numa ponte muito estreita de cimento que resiste até hoje (sem os trilhos e os dormentes), acima das corredeiras do parque.
A chegada na bucólica pracinha do Alto com o silêncio contrastante e todos aqueles deliciosos aromas misturados, do estrume fresco dos cavalos e dos bodinhos, com o perfume dos cedros e pinheiros, era comemorada na estação da Várzea de Teresópolis, nosso destino final; isto ocorria através de dois toques emitidos por um misterioso sinete, o qual sempre sabia da chegada do trem na primeira estação. Um aglomerado de parentes, comerciantes e curiosos aguardava ansioso a chegada do trem nas duas estações, pois este, invariavelmente, atrasava, o que tornava o acontecimento ainda mais importante para a cidade.
Minha ansiedade também aumentava; mais dois apitos curtos e fortes e lançávamo-nos à memorável corrida da estação do Alto à da Várzea por dentro de Teresópolis e ao largo da cidade.
Aquela corrida final era verdadeiramente apoteótica: a locomotiva "voando” e apitando, insistentemente, nas sucessivas curvas da várzea espraiada, podendo agora ser bem avistada da janela do nosso vagão. O capim muito alto e verde, balançando furiosamente junto à composição veloz, enquanto os postes passavam bem rápido com seus fios dançantes subindo e descendo e formando ondas no ar.  Meninos e meninas descalços, maltrapilhos, porém alegres, acenando da frente de suas casinhas para o trem... e para mim.  Aquela manhã toda colorida e cheirosa, de um céu de um impecável azul de uma Teresópolis ainda imaculada dos anos cinqüenta; tudo aquilo, acrescido ainda da perspectiva de mais vinte e oito dias de férias encravadas no paraíso, davam-me uma tal sensação de alegria, liberdade e felicidade que, naquele momento, eu desejava intensamente que o tempo parasse naquela corrida louca.
Então, de repente, estávamos na escuridão esfumaçada do pequeno túnel da Várzea, onde certa vez meus primos e alguns moleques baleiros tiveram que sair correndo com seus tabuleiros para se esconder depressa nos lúgubres e estreitos abrigos, ante a iminente aproximação do trem.  E logo atravessávamos a Reta, desde então, a principal Avenida de Teresópolis e a impressionante locomotiva desfilava garbosa com todo o seu séquito, enquanto os automóveis, charretes, lambretas e bicicletas aguardavam parados, imóveis, como que a reverenciar a imponente composição.
Finalmente, ela alcançava o outro lado da avenida e passando por trás do antigo prédio dos Correios e Telégrafos, entrava gloriosa na Estação da Várzea de Teresópolis onde uma multidão nos esperava. A “Maria Fumaça” freiava, então, com um forte e estridente ruido, as sapatas dos freios imobilizavam as grandes rodas de ferro que, ainda assim, deslizavam presas e iam parando aos poucos a composição.  Enquanto isso, ela badalava sem parar o seu sino e indo cada vez mais devagar parava, exausta, no fundo da estação, com todos os vagões a salvo e enfileirados junto à plataforma de cimento, após um derradeiro apito e um longo suspiro de vapor.
Alexis
Enviado por Alexis em 30/08/2006
Reeditado em 03/09/2006
Código do texto: T229157
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Sobre o autor
Alexis
Lorena - São Paulo - Brasil, 70 anos
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