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PEQUENAS FELICIDADES CERTAS


PEQUENAS FELICIDADES CERTAS


Ao contrário do que diz a lenda, creio que o ser humano não tem absolutamente nada de complexo. Somos simples, simplíssimos. Nós mesmos nos auto-rotulamos “complexos”, para aceitar mais facilmente os nossos problemas.
Você certamente já ouviu o jargão mais de um milhão de vezes, “Ah, a vida é assim mesmo, cheia de problemas, porque o ser humano é muito complexo”. Não, não, não me venha com esta. Somos simples, simplíssimos. O mundo ao nosso redor é que talvez seja complexo demais: informações demais, pessoas demais, veículos demais, casas demais, prédios demais, barulho demais, guerras demais, vaidades demais. Tempo de menos, alegria de menos, satisfação de menos, organização de menos, inteligência de menos, cultura quase zero. Ser humano complexo? O ser humano é composto por um corpo, cheio de sangue e pele e ossos, que tem um cérebro que acaba se preocupando demais ao longo da vida com o mundo complexo ao seu redor, e, conclusão bombástica: começa a julgar-se hiper complexo, e assim se fecha em seus problemas e sua vida passa a ser regida por eles, e só o que sabe dizer é “Tenho problemas, estou cheio de problemas, os meus problemas me sufocam”.
Nascemos tão simplezinhos, em um momento simples, bonito, onde pais e mães estão mais felizes do que nunca, esquecendo por alguns instantes todos os seus problemas de adultos complexos que são; nascemos em um ambiente de alegria, amor, completude, perfeição. Êxtase. Não acho complexo, acho muito simples. Simples e bonito. A palavra complexo é complexa, empolada, horrorosa. Complexo, para mim, é sinônimo de difícil. Não nascemos de maneira difícil. Em geral, o bebê nasce sem maiores problemas, e vai viver durante uns bons dez anos uma vida simples, muito simples, onde precisa apenas comer, dormir, brincar, e – vá lá – estudar um pouquinho.
E então, de uma hora para outra você faz onze anos e parece que tudo fica complexo, difícil, complicado mesmo. Você quer brincar, mas tem vergonha de brincar. Você quer ficar entre os adultos, mas tem vergonha de dar a sua opinião sobre os assuntos. Você deixa de ser simples. Na sua cabeça, tudo está muito claro, você pensa, “nossa, como a minha vida está complicada!”, e se sente o cara mais problemático do mundo, sendo que ainda está há alguns anos do vestibular e nem sonha como vai ser a neurose da sua primeira paixão ou a pressão inigualável do seu primeiro emprego. Mas o conceito (preconceito?) está criado: “Sou um ser complexo e estou destinado a sofrer pelo resto de minha vida...”.
E então, a vida passa zunindo e gritando desesperada, como cigarra em dia escaldante de verão, e você se encontra com trinta anos, e depois com quarenta anos, e então descobre que há algumas coisas no seu corpo que não funcionam mais como antes; seu trabalho não era bem aquilo que você tinha sonhado quando entrou pela primeira vez na universidade; seu companheiro ou companheira parece ser um extraterrestre, alguém que você não reconhece mais e nem sabe porque um dia chegou a amar; seu filho adolescente nem sequer olha na sua cara quando conversa com você, agora só grita, tem chiliques, tem um ataque histérico só porque acha que foi você quem perdeu a tampa da cola Prit que ele estava usando em um trabalho da escola. Pânico!
Mas, alto lá, leitor, acalme-se: vamos tentar parar de achar que a vida é apenas um emaranhado repugnante de problemas e mais problemas. Lembro-me até hoje de um texto da Cecília Meirelles que li quando tinha uns doze anos de idade, intitulado Pequenas Felicidades Certas, que é a coisa mais mágica que já entrou em mim sob a forma de letras. Nada como aquilo, nada, nada. Mágico, fantástico. Se todos soubéssemos dar o devido valor às pequenas e simples coisas que nos rodeiam diariamente, seríamos, sim – e não há aqui nenhum lugar-comum – muito, mas muito mais felizes e satisfeitos.
Um dia, parada em um farol, vi um velho senhor acariciando com amor uma árvore. Sim, acariciava-a como se fosse uma filha. E talvez fosse mesmo. Talvez fosse sua única parente, aquela árvore na rua dele. Aquela era a sua pequena felicidade certa. Pequena e simples, acariciar a árvore, todos os dias, cantar para ela. Todos podemos ter as nossas pequenas felicidades certas. Basta olhar em volta, tentar modificar o olhar. Tentar ver novas coisas nas antigas coisas. É como ler um livro ou ver um filme pela segunda vez. Nunca é igual. Fazer das coisas velhas coisas sempre novas é saber olhar de maneira diferente. E saber olhar de maneira diferente é saber viver intensamente, é saber prolongar o curto espaço de tempo que se tem sobre a Terra. É saber fazer de sua existência uma existência especial, marcante, significante. Permanente.
Clarice Casado
Enviado por Clarice Casado em 24/01/2005
Código do texto: T2294
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Sobre a autora
Clarice Casado
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
16 textos (4910 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 14:48)