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ENCONTRO NADA CASUAL.

    Existem vários tipos de memória. As que costumam ser mais valorizadas pela sociedade, são exatamente as que eu menos tenho. Minha memória fotográfica falha diversas vezes, quando eu mais preciso dela. Costumo lembrar da pessoa somente três passos depois de me despedir. Nesses ultimos dias, fui surpreendido por uma dessas situações que tudo que eu precisava era uma boa memória fotográfica.
    Ainda não eram sete horas da manhã, quando, surpreso, ouvi algo que iria mudar meu dia.

- "Oi!".

Virei para a pessoa e, como sempre, não a reconheci. Não podia dar a impressão de que vestia uma saia justa. Parti para a tática de ganhar tempo, afinal, apesar de pequena, minha memória existe.

- "Oi! Tudo bom?".

Respondi de forma natural, agradeço aqui as infinitas horas passadas dentro de aulas de teatro da vida. Antigamente não conseguiria ser tão natural.

- "Tudo! E com você?"

-"Tudo também!"

Apesar de ter aprendido a pensar rápido, efeito colateral do teatro, me deixou um pouco aflito a conversa nessa altura. Ainda não tinha lembrado de onde conhecia a pessoa e todo o papo "genérico" havia terminado. O silencio seria inevitavel, se....

-"Para onde você vai tão cedo?"

-"Para a faculdade..."

Assim que respondi, vi que tinha assumido a posição defensiva. Estava resumido à responder as perguntas dela. Imagina se ela resolve fazer perguntas do tipo: "Tem visto o pessoal?". O que iria responder sem ao menos saber que "pessoal" seria esse? Tinha que partir para a ofensiva e então acrescentei.

-"E você?"

-"Estou indo para a academia."

Agonia. Sim, agonia. Cada vez mais a saia justa aumenta. Imagina se ela resolve comentar que algum conhecido "nosso" está malhando com ela. Veja bem, hoje em dia, a concentração populacional em academias é gigantesco. Teria que desviar o assunto. E essa minha memoria fotográfica já foi melhor...

-"Você viu a corrida ontem?"

-"Não, mas o Marcio viu! O Rubinho ficou em segundo, né?"

Marcio? Que Marcio é esse? Eu não conheço nenhum Marcio. Isso tá ficando cada vez pior. Será que eu também conheco esse Marcio e também não estou lembrando? Obrigado por nunca me deixar em maus lençois, memória! Mas não vou dar o braço a torcer, vamos apostar todas nossas fichas no mesmo número. Vamos para o tudo ou nada, mocinha.

-"Sim, ficou! O Marcio sempre gostou de corridas. Ele continua indo ao kart? Costumava ir com ele e uma galera para lá!"

Nessa altura, eu já estava torcendo para ela não perguntar nada sobre kart. Nunca andei de kart na minha vida, mas já tinha partido para o tudo ou nada e se ela dissesse que não se lembrava do kart, poderia acusa-la de não conhecer o Marcio e sair por cima, jogando a saia justa para ela. Estava ai a solução para os meus problemas. Após um pequeno intervalo de silêncio, ela responde.

-"Não, ele deixou o kart depois que começou a trabalhar com seu pai no escritório."

Seu pai? Seu pai ou meu pai? O que ela quis dizer com isso? É inaceitavel que com tantos recursos que temos em nossa lingua, ainda encontremos frases com mais de um significado. O pior é que não posso perguntar isso à ela. Estaria assinando a carta de confissão da saia justa. Ah! Se, ao menos, minha memória voltasse a funcionar... Resolvi então apelar para o ultimo recurso. A hora! Sim, é muito simples se livrar de qualquer pessoa na rua, quando o papo está prestes a acabar e o silencio a reinar. Vamos e convenhamos que não é bom estarmos conversando e o silencio aparecer. Não importa se está conhecendo a pessoa no momento, ou se a conhece há anos. É sempre uma situação muito chata, apesar de teimarem em dizer que o silencio não é a falta do que dizer, mas sim, a falta de coragem de se dizer o que teria que ser dito. Acredito que hoje, a segunda opção mais se encaixaria. Por que não assumo logo a saia justa e pergunto de onde a conheço? Mas se já estou bancando essa história toda até aqui, existe um belo dito popular que diz..."o show tem que continuar". Continuemos então, partindo para a saideira.

-"Que horas tem?"

-"São,sete......e cinco."

Pronto, finalmente, está na hora do cheque mate. Vamos dar adeus à esse encontro mal sucedido. Afinal, não há escapatória para essa saída. Não importa as horas, você sempre está atrasado entre cinco e trinta minutos para um compromisso marcado há dias. Nunca se esqueça de utilizar um compromisso pessoal, onde fique subtendido que a pessoa não pode te acompanhar. Pensei em vários, como cabeleireiro, dentista, exame de sangue. Por sorte, lembrei que havia dito que estava a caminho da faculdade. Que sorte! Ela não deve querer me acompanhar até lá, afinal, ela tem que malhar.

-"Estou atrasado já, preciso ir..."

- "Tudo bem, também estou atrasada...beijos Paulo, a gente se fala, vou falar com o Marcio para a gente marcar alguma coisa..."

Paulo? Que Paulo é esse? Isso tá parecendo pegadinha do Faustão ou é um teste. Ela deve ter percebido em algum momento que eu estava em saia justa e resolveu fazer com que eu me rendesse. Ah, mal sabe ela com quem ela está se metendo. Poderia ser melhor se eu lembrasse dessa pessoa e iria jogar na cara dela, que ela que estava em saia justa e que não tinha me reconhecido totalmente. Na falta desse "detalhe", parti para outra tática. Uma coisa que eu aprendi com meus quinze, dezesseis anos, que foi "dançar conforme a música". Me pareceu razoavel.

-"Isso! Faz isso sim! Té mais, Craudinéia."

Me virei rápido e comecei a andar para não dar chances de retaliações por parte dela. Um sorriso maroto e a sensação de ter saído por cima de uma situação desagradavel saltavam no meu rosto. No final do terceiro passo, prazo final para uma manifestação da memória fotográfica, um amigo aparece todo empolgado, me perguntando como eu tinha conseguido. Perguntei o que eu tinha conseguido e ele respondeu que tinha conseguido fazer com que que uma loiraça ficasse parada de boca aberta olhando para mim. Definitivamente, minha tática deu certo. Ela está sentindo agora as dores de ter que "engolir" uma saia justa. E no meio de tudo isso, apenas uma coisa povoava a minha mente, tanto que acabei por "pensar alto"...

-"É, até que minha memória não é tão ruim assim."
Daniel Motta
Enviado por Daniel Motta em 31/08/2006
Código do texto: T229888
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Sobre o autor
Daniel Motta
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
3 textos (55 leituras)
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