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Relembranças


         Estamos no inverno. Como é diferente o entardecer nesta época do ano... O sol se põe mais cedo e vem logo em seguida uma aragem fria, um sereno úmido e as pessoas vão passando apressadas, encolhidas, desejosas de chegarem rápido a suas casas e se abrigarem do vento frio que fustiga seus rostos. Por outro lado, aquelas que trabalham à noite, passam bem agasalhadas para enfrentarem o frio que as acompanhará durante todo seu trabalho noturno. Não poderão, como nós, se beneficiarem de uma cama quentinha até o romper de um novo dia.
        Passados uns instantes a rua fica logo deserta, silenciosa, ao contrário das noites de verão, quando a meninada se faz presente, brincando alegremente em frente de suas casas, quebrando a monotonia de uma rua quase deserta.
        Estou defronte da janela e olho para fora curiosa para encontrar um passante  com quem eu possa dialogar. Ninguém aparece para conversar sobre os acontecimentos do dia. Não vejo pessoa alguma passando pela calçada e  neste instante a nostalgia toma conta de mim e relembro com saudade a minha época infanto-juvenil quando, então, eu vivia no mundo dos sonhos e das ilusões !
        Bons tempos aqueles!!! Para espantar o frio que tentava nos impedir de brincar, a meninada se reunia e para esquentar íamos jogar peteca  na rua, em frente de nossas casas, ao alcance dos olhares de nossos pais. Como ficava animada a noite... e  não faltavam os namoradinhos que aproveitavam a ocasião para se enturmar e entrar na roda; era o jeitinho que achávamos para podermos  conversar sem que os pais nos repreendessem. Ah! Como era gostoso podermos dar as mãos e trocarmos olhares afetuosos sem sofrermos nenhuma repreensão.
        Hoje, relembrando tudo isso, vejo como a gente era inocente naquela época. Para ficarmos felizes bastava um aperto de mão ou um olhar mais penetrante entre o casalzinho e isso era o bastante para nossa noite...
        Ali, brincando de roda ou jogando peteca, ficávamos até mais tarde quando nossos pais nos chamavam para casa, porque no dia seguinte a escola nos esperava. E a cena se repetia por quase todas as noites do inverno. Não nos deixávamos abater pelo frio que insistia em penetrar nos nossos lares e em nós. Saíamos à procura dos amigos e, com muita disposição, nos reuníamos novamente e repetíamos os jogos de sempre, ficando atentos para a chegada ou não dos nossos paqueras.
        Mas o tempo não espera, ele passa implacável levando com ele muitas de nossas alegrias e deixando em nós uma saudade imensa daqueles bons tempos que não voltam mais. Crescemos, cada um seguiu seu caminho e daquele tempo só ficou a  lembrança de muitas proezas realizadas.
        Muitas vezes fico pensando naquele poema de Chaplin que diz que a vida devia ser ao contrário,
“começar de trás para a frente, isto é, iniciar com a morte e terminar com o nascimento”. Quem sabe assim poderíamos ter uma vida melhor partindo do pressuposto de que chegaríamos à mocidade com mais experiência de vida e então poderíamos realizar nossos planos, nossos sonhos, nossos ideais  confiantes de que estaríamos no caminho certo?
Renée Ribeiro de Almeida
Enviado por Renée Ribeiro de Almeida em 02/09/2006
Código do texto: T231312
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Sobre a autora
Renée Ribeiro de Almeida
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 82 anos
21 textos (1165 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 10:26)
Renée Ribeiro de Almeida