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UM POUQUINHO DE HUMOR NEGRO

 Acho que se um dia pararmos para analisar a morte (não o ato de morrer), mas a finalidade da morte, acho que entraríamos num colapso nervoso do tamanho de um cânion, um abismo depressivo infinito e angustiante. Você vive intensamente anos a fio sabendo que um dia irá definhar como um cão sujo sem dono e simplesmente ser enterrado em um buraco, um mero buraco. A não ser que você seja uma pessoa de posses e possa enfeitar o seu enterro, com pompas e bichices, dar comida e bebida para aqueles que só lembraram de você na sua morte e assim ter um lugar digno, onde seu corpo poderá apodrecer com louvor.

   Coisas como “Carpe Diem”, “viva loucamente”, “aproveite cada segundo”, são grandes idéias de merda que não valem de porra alguma quando chega a hora de sua medíocre existência chegar ao fim. Se conscientize disso e acho que você poderá levar as coisas um pouco menos a sério. Está aí uma ótima idéia, leve a morte na brincadeira, use de seu bom humor negro, que sei que mora no seu coração. Em alguns pode estar bem escondido e engalfinhado nas entranhas dessa bola de carne que não pára jamais de bater (a não ser quando você morre), porém em outros aflora como margaridas na primavera e chega às vezes, a incomodar os mais próximos, tamanho a crueldade de seus comentários.

   Outro dia estava chegando em casa, quando vi um grupo de velhos conversando. Como a rua estava vazia e era à noite, eu pude ouvir a conversa deles a alguns metros, e o mais gordo dizia:

__ Teve um cara que morreu assim, de uma hora pra outra caiu no chão.

   Quando ele acabou de dizer isso o mais careca solta uma risada muito diabólica que eu jurava que iria sentir cheiro de enxofre dentro de alguns segundos. Então, o mesmo completa:

__ Fui fazer exame outro dia. O médico pediu pra eu fechar os olhos e colocar o dedo na ponta do meu nariz.

   Nisso eu já havia passado por eles, mas ainda pude ouvir a risada do cramunhão ecoando pela rua. Pensei “Porque colocar o dedo no nariz de olho fechado?”, e de repente, do modo mais idiota possível, lá estava eu, andando na rua de olho fechado e com o dedo na ponta do meu nariz. Logicamente não tive dificuldade alguma em realizar fato tão extraordinário, mas aí pensei novamente “Será que existe algum ser na face da terra (tirando os que não tem braço, ou os em estado vegetativo, ou os retardados, ou um monte de incapacitados) que não consiga colocar a porra do dedo na ponta do nariz?” Qual a finalidade de se colocar o dedo...Ahhh dane-se a finalidade, deve ter alguma. Um cara não iria estudar cinco, seis anos da sua vida para falar a um velho careca que ele deve colocar o dedo no nariz.

   Porém essa minha chegada em casa não havia terminado com o caso dos velhos. Um pouco mais à frente vi uma cena que não me agradou por completo, porém uma pequena felicidade reinou em minha mente durante alguns segundos, já que odeio os pombos, como um pai odeia quem estuprou sua filha. Um maldito e sujo pombo atropelado (foi o que deduzi pela cena) no meio da rua. Só que o mais interessante estava na sua frente, pois como minha rua é uma subida, eu só estava vendo as costas do pulguento. Quando passei por ele e vi que sua barriga estava aberta e que suas tripas pularam de lá, como maionese que sai de um daqueles tubos da lanchonete, imediatamente lembrei de minha mãe (não...minha mãe não é um pombo), e do que ela falava pra mim quando eu gritava:

__ Manhêêêêê, “tô” com fome. Logo ela respondia com o mínimo de paciência em sua voz:

__ Vai pra rua, mata um homem, tira as “tripa” e come.
Daniel Bayão
Enviado por Daniel Bayão em 02/09/2006
Código do texto: T231377
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Sobre o autor
Daniel Bayão
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 31 anos
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Daniel Bayão