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Documentário

   Ás vezes me sinto um tremendo inútil, um cara que em nada irá acrescentar na vida de qualquer um. Por outras me sinto o cara mais foda do mundo. Meu ego vai pro inferno com isso. Por exemplo, quando estou no ônibus. Malditos sejam os ônibus. Todos os dias, pela manhã, tenho que pegar a porcaria de um ônibus, cheio de velhos inúteis, que na maioria das vezes estão indo passear, enquanto o filho da puta aqui é obrigado a ir em pé, pois os lugares estão todos ocupados. Na grande maioria das vezes por esses velhos inúteis. Não tenho nada contra os velhos, só não consigo entender porque eles pegam a porcaria do ônibus de manhã. Eles têm todo o tempo do mundo pra irem dar milhos aos pombos, ou jogar conversa fora numa esquina. Mas não, eles têm que pegar a merda do ônibus de manhã cedinho.

   Vou tentar compreender os velhos, porque um dia eu também posso ficar assim. Sei lá, não sei como é ser velho. Realmente deve ser um pé no saco. Acho que eu também irei pegar o ônibus cedo quando for velho. Só pra irritar os outros que ficam em pé, e que ainda por cima pagam passagem. Deve ser legal fazer isso. Eu gosto de irritar os outros.

   Mas voltando ao assunto de eu às vezes me sentir um cara foda. Estou lá eu no ônibus e quando eu consigo um lugar pra sentar, leio um livro. Geralmente isso acontece quando está chovendo. Acho que os velhos têm medo de pegar uma pneumonia, ou sei lá o quê. Bem, estou lá lendo e sem querer escuto algumas conversas de pessoas que estão na minha frente ou atrás de mim. Não faço de propósito. Juro que não, mas às vezes é inevitável.

   E são justamente esses papos que me deixam mais puto da vida. Como tem gente burra nessa porra de lugar. É só papo imbecil, só gente falando merda. Os piores são aqueles caras com seus terninhos e gravatinhas, que ficam tentando impressionar uma garota com um papo de pseudo – empresário ou coisa parecida. Dá nojo.

   Tento me concentrar no meu livro, mas não dá! O mal sempre vence, a não ser no cinema, claro. Eu gosto de cinema. Queria ser cineasta, mas abomino a idéia cada vez que vejo um filme ruim. São tantos filmes ruins que dava pra matar alguém com uma sessão deles. Também não gosto de Hollywood. Bando de hipócritas que pensam que vão mudar o mundo com suas doações e essas porcarias.

   Na verdade eu queria fazer documentários. Viajar para um lugar qualquer e retratar algo qualquer. Isso é legal. Acho que vou fazer um documentário sobre os velhos que pegam ônibus pela manhã bem cedo. Daí eu não precisaria viajar nem nada. A maioria dos documentários sempre é assim, meio inútil. Mas acho que não daria certo, eu acabaria falando de outras coisas no documentário, ou de coisas que acontecem depois que saio do ônibus. Os velhos iam acabar ficando em segundo plano.

   Mas espera aí. Depois que eu saio do ônibus, eu atravesso a rua, ando uns 300 metros, abro minha bolsa, pego meu crachá, toco o interfone. O portão abre, eu entro e falo “ôba” pro segurança. Ele em seguida abre a porta que dá acesso ao elevador. Pego o elevador, aperto o botão do 6° andar. Saio e abro outra porta, vou ao bebedouro, tomo um copo d’água e vou inutilmente pro meu computador trabalhar. Que grande merda de documentário isso daria. Às vezes me sinto um tremendo inútil.
Daniel Bayão
Enviado por Daniel Bayão em 02/09/2006
Reeditado em 03/09/2006
Código do texto: T231380
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Sobre o autor
Daniel Bayão
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 31 anos
9 textos (5417 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 04:19)
Daniel Bayão