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A Moda


Moda é coisa interessante – as mulheres que o digam. A minissaia e a saia longa foram e voltaram não sei quantas vezes. Saias godê, cintura marcada, calças apertadas, largas ou bocas de sino, vestidos-balão, mini-blusas, roupas esvoaçantes e colantes, transparentes ou não, tudo em conformidade com os modismos.
Já se usaram sapatos de duas e três cores, bicos largos e finos, de verniz ou camurça, botas canos longos e curtos, saltos Luís XV e plataforma, abertos ou fechados.
Neste século, no Brasil, já se viu a moda dos maxixes, modinhas, valsas e chorinhos de Ernesto Nazaré e Zequinha de Abreu. O tango tornou-se elite depois de marginalizado, graças a Carlos Gardel. Após a 1ª Guerra Mundial era moda o foxtrot e o charleston. A rumba, o bolero e o chá-chá-chá. O twist e o Rock. A música sertaneja de Chitãozinho e Xororó nos anos (70). Viu-se a música pop sem ou com MTV. O modismo da lambada e a volta do som sertanejo. Misturam-se nas décadas de 80 e 90 os modismos das músicas Rap com os megashows eletrônicos.
Com os cabelos se fez quase tudo. Longos ou curtos, engraxados com brilhantina imitando Rodolfo Valentino ou livres e soltos como nos hippies. Cabelo com "pezinho", bigodes grandes ou aparados sob medida, costeletas ou não, cabelos cortados com máquina dois para os homens e cocochanel para mulheres na década de 50. Fios repicados de leoas e pintados de azul, roxo e róseo nos anos 80. A moda foi no fim da década de 60, cabelo bem curtinho para as representantes do pseudo sexo frágil. Pasmem só, até mulheres com cabelos crescidos na axila foi moda nos anos 60. A moda é uma loucura.
Falando sério, dentre os fenômenos coletivos, a moda é a mescla de aspectos psicológicos individuais e sociais. Concilia a padronização e uniformidade com o desejo de ser diferente.
Ao permitir a padronização, a moda nos ensina haver muitas maneiras de proceder e vestir aprovadas pela maioria. Com o "marketing", a Indústria de Consumo, o modismo em voga permite ao imaginário a fantasia da igualdade, eliminando as diferenças de classes sociais.
Para ilustrar melhor: pesquisas e enquetes realizadas com a periferia "funk" dos arrastões invasivos nas praias da zona Sul do Rio de Janeiro nos ensinam dados singulares. Um deles é que a geração 90, periférica, pobre, gosta dos mesmos tênis "nike", das mesmas roupas caras e querem apenas assustar os bacanas. No fundo pretendem se nivelar, se igualar aos "mauricinhos". Quer dizer, ensejam a uniformidade, o direito de serem como os outros.Sob o ângulo da diversidade, a moda permite às pessoas se sobressaírem na padronização. Facilita ela o exibicionismo, o fazer-se notar, o chamar a atenção num contexto de competição sexual e social. Nem uma mulher gosta de ir a uma festa sabendo de outra com o mesmo modelo de vestido. Perguntam sempre entre si: "Qual a roupa com que você vai?" evitando surpresas femininas desagradáveis.
Para sermos sintéticos, a moda encerra a aparente dialética, o paradoxo, a contradição do próprio ser humano, entre ser aprovado, ser aceito e simultânea ou coetaneamente ser diferente, distinto, distinguível. A moda facilita a possibilidade de ser arriscado sem ser chamado de louco, extemporâneo, desajustado.
Tudo indica haver uma relação estreita entre moda e ritmo de mudança, em face de cada época. Por exemplo, no período 20-30, dos movimentos tenentista e modernista, antecedentes da revolução de 30, a moda sofreu grandes mudanças femininas, já em processo de libertação social. Os vestidos vão para acima dos calcanhares acompanhados de botas cano longo. No fim da década, em 1927, sob comando de Paris, a mulher subiu mais ainda as saias ao ponto de aparecerem as ligas rendadas. Os seios já estavam à mostra.
Na década de 60, as feministas tiraram "soutiens" sob a batuta de Betty Friedan. Hoje, os vestidos transparentes fazem questão de mostrar os sucedâneos dos. antigos califons e espartilhas. A contra cultura hippie, era planetária de libertação, adotava roupas soltas, cabelos despenteados e desalinhados.
A partir de 70, com a supremacia da TV-a-cores e das telenovelas, o ritmo de mudanças na moda tornou-se alucinante, num vai-e-vem ao sabor da publicidade e da imitação, ingrediente psicológico importante no modismo. Reproduzir gírias, modos de falar e vestir dos artistas e ídolos da imagem televisiva tornou-se comum na aldeia global. O ritmo da moda é mais rápido em acordo com as transformações deste final de século.
O conflito do permanecer como se está e ser  outro é inerente ao comportamento humano. Transmuta-se para a moda a luta entre dois pólos: a permanência e a aberração. Como permanência teríamos a saia longa, larga, cintura acima dos quadris. Como aberração, a saia estreita, curta, cintura larga, abaixo dos quadris.
Para mulheres a quem recorri como entendidas no assunto, o vestido "tubinho" aparece em fotografias do começo do século. Sobe e desce em comprimento, mas o estilo permanece. A moda transparente é antiga, ora nos babados, nas mangas, acima da barriga. Hoje, é usada para todo o corpo. O antagonismo entre permanência e aberração – o novíssimo, o diferente – é compatível com o comportamento do homem. A moda apenas exterioriza o conflito.
Mesmo o embate masculino-feminino mimetiza-se na moda. Antes de 1980 homens e mulheres eram diferenciados em seus papéis de gênero e de identidade sexual. Os "almofadinhas e melindrosas" da primeira metade do século XX eram bem definidos.
Agora, nos anos 90, mesmo antes, busca-se a unissexualidade grega. "Mauricinhos e patricinhas" se igualam nos hábitos e roupas. Dividem contas, motéis e lanches. Os "jeans", de início roupas rancheiras inventadas para o trabalhador-homem, hoje seja de fios de cóton, desfiados, lavados ou não à pedra, desbotados ou não, são modas comuns aos dois sexos. Camisetas, cabelos, ternos, gravatas, sapatos, relógios, servem à bissexualidade.
Não se assustem: a moda verão nos grandes centros inclui um "look - bad - Girl" (menina safada) com um visual de camisões desabotoados, caleçon tipo samba-canção (cuecões) e cabelos bem curtinhos, estilo masculino. Também não estranhem se em 2010 dormirem com uma mulher de cuecas samba-canção. Problema: os homens cada vez mais cedo, a partir dos 20 anos, recorrem aos consultórios de psicoterapia com impotência sexual. É a moda da impotência precoce.
Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 03/09/2006
Código do texto: T232024
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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Maurilton Morais