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POLITICA DE SAQUAREMA II - “E SE ABRISSEM O JOGO?”

Por pouco não causo um caos.
 
No distante ano de 1683, James Salgado, um padre da Espanha, eleva ao conhecimento do público o seguinte comentário: “Eles pretendem ter-lhes sido concedido um poder absoluto, embora isso seja contra todas as leis divinas e humanas. Apenas Deus tem direito a semelhante poder”.

Tamanha lucidez para um clérigo setecentista; tamanha ousadia, para quem se arremetia dessa coragem em pleno fulgor dos “saberes” do “Santo Ofício”. Busca-a no relacionamento Deus-homem, representado aprioristicamente nos capítulos iniciais do livro de Gênesis, onde se descreve em sua parte mediana, o relacionamento entre Aquele e Abraão, à evidência, de um lado a supremacia divina e a humílima presença do homem, na representação consensual de Abraão. Gênesis 18-25.

O consenso vigente na Fazenda Borba Gato, é o do silêncio, ainda que haja divergências.

Dona Miloca me cumprimentou toda sem graça. Estranhei na velha aquele humor de bola murcha e quis saber suas razões. Fizeram-lhe ouvir poucas e boas na prática clerical do domingo. Afinal, quem, aquela insignificância, para ficar falando abobrinhas sobre nossas potestades?! Ora, a transversalidade utilizada pela administração atual é cuidadosamente medida e incorpora uma eficiência incapaz de ser comparada a todas as outras situações de poder que a antecederam. Para isso se utiliza de todos os artifícios que lhe são disponibilizados dentre eles o controle subreptício dos púlpitos.

Segundo informações dos arquivos municipais, o último alcaide não era dado aos altares, tampouco à lideranças políticas e preferia se articular diretamente com as lideranças comunitárias. À prática atual e a essa herança direta, acrescem-se as lideranças políticas que se entregam sem qualquer pudor. Quanto aos demais esses mesmos arquivos registram uma expressão "stricto sensu", já que não passavam de delegados de nossa benemérita multinacional, mas, no todo todo mesmo, todos eram convertidos à cartilha de S. Paulo – “... que não haja entre vós dissensões; antes, sejais unidos em um mesmo sentido e em um mesmo parecer.” – I Cor. 1:10

Essa não é outra senão aquela fórmula abominada pela filosofia contemporânea da  burrice, como contemplativa da não divergência. Na visão escrachada de Otto Lara Resende, o mineiro só é solidário no câncer. Demais disso, é gente que conspira e é nos altares que estava o gérmen da conspiração de Vila Rica, da qual Saquarema esteve ausente. Talvez não estejamos inseridos no contexto evolutivo da sociedade contemporânea, respondo a D. Miloca. Ora, porque não abrem o jogo logo? Todo mundo sabe quem foi o grande construtor do belo templo da Vila das Goiabeiras. Que mal há nisso?! Que mal há, se um de nossos políticos com mandato, eleito à custa dos votos dos irmãos protestantes, se especializou na construção de bancos para igrejas, locuplentando-se do prestígio de seu mandato e da proximidade da administração com as lideranças religiosas locais? Que mal há nisso? Que mal há, se em todas as quermesses tem sempre que ser desfraldada uma faixa de agradecimento, pelo apoio oficial? Que mal há nisso? Que mal há se lideranças religiosas, são colocadas em estratégicos cargos administrativos apenas para se manter o controle de todas as vertentes locais? Que mal há; afinal deu-se ou não um carro de presente a um influente líder religioso do município, enquanto toda a população tem que enfrentar um transporte caro e de péssima qualidade?

Mal algum há nisso. Enfim, certo estão nossas lideranças clericais. Presente o líder de todos os líderes, nada de mal em que se lhe dê lugar de destaque no altar. Mal algum existe, certo estão os que se sentem confortados a verem os recursos de toda uma população canalizados para grupos especiais e privilegiados!

Que mal há nisso?

O Mestre de nossos sacerdotes, deixou um ensinamento que deve ser observado com extrema cautela: “Sois a luz do mundo”.

Se nos fora dado saber discernir as coisas, somos por obrigados a fazer uso dessa sabedoria de forma a contribuir para o esclarecimento dos que estão ao nosso redor. Não podemos nos esconder sob o pálio de nossa influência e funcionarmos como avalistas de práticas que alienam, ao invés de despertarmos o potencial da crítica e da discussão, pois, subserviência só deve ser devida a Deus, como o disse James Salgado.

Aquele Mestre, expulsou do templo os que o utilizavam como palco de pretensões pessoais, e da mesma forma e com o mesmo rigor determinou: "a César o que é de César, a Deus o que é de Deus." Não se pode deixar que os altares e os púlpitos se transformem em palanques. E só não é assim porque não vemos às vezes, se estamos inebriados pelo entusiasmo do beija-mão, e, se é bem certo que nem todos ganharam carros, nem todos ganham paramentos ou benesses, nem todos se ajoelham, mas que há os que agem assim, há, e ninguém, de graça, beija a mão de ninguém.

Não foi outro senão o próprio Alcaide, quem afirmou, em matéria veiculada pela imprensa regional, que parte dos milhares de real que recebe de salários, é distribuído às instituições do município, dentre elas as religiosas. Porque será então que não abrimos o jogo e não saímos de debaixo do alqueire, não assumimos o velador, e distribuímos nossa luz, se é que a temos, a todos quantos se encontram dentro da casa?!

Peço perdão a Dona Miloca, pelo carão que a fiz passar, mas, ai deles, Dona Miloca, que infelizmente já passou o período da ditadura militar e agora, nós podemos dizer o que pensamos, e, mesmo que sejamos hereges, essa capacidade heurística nos é dada por força constitucional e disso eu não abro mão, agora, se a carapuça serviu...
Wagner M Martins
Enviado por Wagner M Martins em 10/09/2006
Reeditado em 21/02/2007
Código do texto: T236987

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Sobre o autor
Wagner M Martins
Sabará - Minas Gerais - Brasil, 64 anos
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