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A Escuridão

                                                                             
                                                                           

Primeiro aqueles olhos lindos, me olhando de cima com ternura. A boca escondida e eu tentando adivinhar o formato daqueles lábios, a maciez, o esplendor daquele sorriso.....Quando minha imaginação galgava rapidamente o muro que me separava da realidade....o nada. A escuridão total.....a morte....
Aí, um sujeito que nunca vi, pega uma serra.....deve ser dessas circulares, pequenas, que vem nesses kits anunciados exaustivamente pelas tvs, e, atrevidamente, serra meu externo!!!! É, sem mais.....vai lá e serra. Eu, graças aos céus, na escuridão. Dai o carinha pinça as artérias do meu coração e desvia o meu fluxo sanguíneo e a oxigenação do mesmo para uma máquina que fica no chão, ao meu lado. Chamam de circulação extra-corpórea.
Nessa altura vocês podem imaginar minha revolta.....mas nada. Santa escuridão. O sujeitinho atrevido, não satisfeito, pega uma enorrrme seringa, enche de potássio e pimba.....direto no coração....que para, relaxado. Aí vocês imaginam que fiz a maior sujeira na mesa de tanto medo.....nada. Mortinho, quase que literalmente. Devo avisar aos interessados que não vi nenhuma luz no fim de um túnel....alias, não vi sequer o
túnel. Total escuridão.
Vou poupa-los da sórdida descrição da retirada de pedaços da minha safena, pela coxa e outras atrocidades que devem ter deixado o sujeitinho excitado, disfarçando o volume por baixo da maca....
De repente fez-se a luz!!!!!!!! Abri meus doces olhinhos com um treco enfiado na minha garganta e um bando de gente em volta perguntando se estava tudo bem....como caracas eles acham que eu poderia responder com aquele cabo de vassoura atravessado na minha boca!!!!! Até que um gênio exclamou: Eureka!!!! Ele só fica resmungando por causa do pequeno e delicado tubo gentilmente inserido em suas entranhas!!!!!!! Agradeci-lhe muiiiito depois pela sua salvadora perspicácia....
Quando me vi livre daquele trem tentei me localizar naquele admirável mundo novo....Eu estava deitado em uma cama, num lugar cheio de cortinas chamado UTI. Um monnnnte de fiozinhos me ligando a um monitor barulhento atrás de mim....e nu. É...nu....peladinho da Silva. Montes de enfermeiras indo e voltando e, espero que só na minha imaginação, cochichando sobre aquela pobre visão de coisas murchas sem vontade própria Eu não decidia nem a hora de fazer xixi.....fazia e pronto
E as horas passavam com a excitação e ansiedade de velhinhos em um asilo, na expectativa de mais um concurso de "Vaca amarela cagou na panela quem falar primeiro come tudo dela"
Dali a pouco chegam duas enfermeiras agitadas e felizes: Hora do banho!!!! Ah....que bom....eu to precisando mesmo....onde fica o chuveiro???? Risadinhas cúmplices me responderam.....fica aqui mesmo hihihi!!! Meu Deus, que dizem ter criado tudo perfeito....que vergonha.....quanto constrangimento. Pareciam funcionárias de um lava-rápido exemplar, verificando desde os pneus até o porta malas. Tinham até talquinho. Algo para ser tratado pelo resto da vida, por uma psicoterapia em grupo....eu e 15 psiquiatras!!! A comida.....bem.....vamos esquecer também. Me ensinaram que se eu não tiver nada de bom pra falar de alguma coisa, melhor não falar mal também.
Bem.....isso acima se refere apenas ao dia da cirurgia e ao dia seguinte na UTI. Vou poupa-los dos demais 13 dias pois temo vocês poderiam passar a precisar de calmantes cada vez que ouvissem falar a palavra CIRURGIA. E de camisa de força se precisassem faze-la......
Apenas como citação, gostaria de lembrar que  após estar 10 dias no quarto, quase em alta, fui obrigado a baixar novamente na UTI por uma arritimia no coração causada pela minha tentativa de bater em um posudo enfermeiro-chefe, que por não entender de merda alguma não fez qualquer esforço para resolver um pequeno problema de prisão de ventre particularmente dolorido.
Com muito amor no coração....que, alias, não faço a menor idéia que formato tenha hoje....
Kondor
Enviado por Kondor em 11/09/2006
Reeditado em 11/09/2006
Código do texto: T237552
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Kondor
São Paulo - São Paulo - Brasil
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