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POLITICA DE SAQUAREMA I - SERÁ SERVIDA A CEIA!

"A aplicação dos argumentos utilizados nesse texto, à semelhança com qualquer cidade ou circunstância política atual, será mera coincidência, no entanto sua publicação em um jornal regional, causou grande discussão entre a comunidade religiosa, principalmente."


“...e começaram cada um a dizer-lhe: Porventura sou eu, Senhor?”

Estamos nos aproximando da undécima hora. Os que irão participar da ceia, se preparam. Cumpriram rigorosamente as instruções e encontraram o sítio adequado sem maiores indagações. O fato inevitável do passar do cálice é uma cerimônia que se repete minuciosamente, como na expiação.

Começam todos a subir as escadarias que dão acesso ao salão nobre, onde está mesa posta, coberta com toalha de renda, provavelmente confeccionada por prendada senhora da Vila de Pompéia; doces de banana sobre palha da mesma espécie, vindas da Lapa, Banda de Música na porta, baldeada de Vila das Goiabeiras, é claro, e dona Luluzinha com poema na ponta da língua, pronta para o ato final.

Saio ao alpendre e quem vejo?! - Dona Miloca!!!

Passos cadenciados, flanando sobre os degraus de madeira da escadaria, mãos nas “cadeiras” e um debochado “muxoxo”, quando me vê no grande alpendre:

- Você por aqui? -  Retorno a observação no mesmo tom.

Fazia tempos que não me encontrava com a velha. Mas que faria ela naquele ambiente monocórdio onde nos moldes do Velho Testamento se procederia à unção do provável novo prefeito?! Como que adivinhando o meu pensamento responde na bucha:

- Será que eu não posso?

No alpendre, um conflito de retórica faz restos de objetos de navegação “esquecidos” num canto, reforçarem a “lembrança” de que Saldanha Marinho, o republicano de Olinda que governou Minas entre 1865 e 1867, é muito mais que o nome de uma ponte. Aí a velha esnobou. Desceu fundo na memória de nosso arquivo histórico. Na confusão de meus conceitos, sobre a possibilidade de certos nomes nada significarem para as nossas atuais gerações, foi taxativa: “Nosso tempo e nossos homens públicos, não refletem a grandeza de nossa história!”

- Estou por ouvir o que se passa lá dentro – continuou a velha. Esse moço está deixando um traço de incertezas nesta cidade, que terá reflexos irreparáveis. Todo o seu séqüito é constituído de inescrupulosos chupins, interessados apenas nos altos salários pagos pelos cofres públicos. Ninguém, ninguém que tenha uma pequena noção de bom senso, poderá deixar de perceber o quanto essa política de apadrinhamento é perniciosa e até onde poderá chegar essa choldra de oportunistas.

- Mas não dizem ser esse o melhor prefeito que Saquarema já teve?

- Engano seu, meu caro escriba, engano seu. Me aponte algo de consistente que tenha sido construído nesta cidade nos últimos oito anos?! Estamos em penúltimo lugar em qualidade de vida, na Região Metropolitana, a cidade está cheia de esqueletos e fede, de noite e de dia.

- Essa forma de escolha do provável sucessor, que está por acontecer, pode ser prova de uma inconsistência política de nossa sociedade? E porque as lideranças locais não reagem? - pergunto, e a velha sabedoria é contundente:

- Sim, meu filho, é. Veja você que a cidade não apresenta nomes de conteúdo, não há envolvimento no processo, daquela liderança de boa cepa, preocupada com o todo; não há um nome que empolgue. Nossa política local é uma política de satisfação pessoal, miúda e rasteira; são lideranças que representam a si próprias. Ganha a eleição, quem dá mais. É uma mediocridade só; não há conteúdo; a cidade não estimula a formação de novos lideres, as entidades representativas não germinam por aqui; não há uma associação comercial, que toda cidade tem; não existe uma entidade voltada para a participação da juventude; as instituições existentes, todas elas têm dono e estão umbilicalmente ligadas à Prefeitura. Nada funciona sem o patrocínio oficial e quando funciona, é tal qual o Clube do Cavalo, os balancetes não fecham; algumas obras que são realizadas, ao invés de serem vistas como obrigação, são tidas como bênçãos... recebidas por obra e graça do chefe da claque!

O pátio interno do velho Solar dos Jacintos ouve impassível o discurso de Dona Miloca. Passo a imaginar uma porção de cavalos amarrados em seu interior com escravos dóceis zanzando daqui e dali...

- Sabia que o Marquês de Sapucahy foi PROVEDOR DA FAZENDA DOS DEFUNTOS E AUSENTES, RESÍDUOS E CAPELAS, da cidade de Mariana? Chamava-se Cândido José de Araújo Viana e nasceu em Congonhas do Sabará em 1793. Escreveu um dos mais belos sonetos da língua portuguesa, “Saudades de Minha Filha”. Além de político e jurista, era músico, autor de modinhas, dentre elas “Mandei um Eterno Suspiro” e “Já que a Sorte Destinara”. Era sogro de Pedro Nolasco, um dos construtores da EFVM, nome que encima a estação ferroviária de Vitória, no Espírito Santo. (Ah... e o Secretário Municipal da Cultura de Saquarema, achou um feito incomparável, a doação pela Prefeitura, de um uniforme estilizado para a Guarda de Congo de Vila das Goiabeiras, com recursos da venda de pastéis na praça. É nossa rica cultura transformada em barraquinha de pastel...)

E por aí se vai a velha. Se apertasse um pouco mais, talvez recitasse uma estrofe do soneto de Sapucahy, ou cantava dele uma modinha.

Sempre que me encontro com dona Miloca, sinto-me como se estivesse em estado de sublimação. Além de uma sabedoria rara, demonstra um senso de análise e moderação, acima da média local; e me passa muita segurança. Em sua observação, preconiza que o histórico desse momento político, só contribui para a dilaceração de nossas expectativas. Baseado em aspectos estritamente pessoais, o eleitorado local vem se deixando levar por apelos sentimentalistas e vê, no administrador, a pessoa que autoriza a doação da cesta básica; vê nele a pessoa que lhe entregou pessoalmente o cartão do bolsa família (sinecura que o Governo Federal e Governo Estadual brigam pela paternidade na televisão); não vêem nele, o responsável pela administração superior do município, que deveria ser impessoal e isenta. Esse o mote.

- Nenhuma perspectiva?

- Pode até ser um dia. O último grande lance da política local – diz a velha – aconteceu com o último Alcaide. Não se benza; essa é a verdade. Sua eleição quebrou laços de uma política municipal arcaica, atrelada a interesses da Multinacional que se instalou aqui nos anos 20; varreu da Prefeitura uma meia dúzia de sobrenomes que posavam de medalhões e se impunham no município. Foi eleito no peito e na raça; venceu todas as forças locais e esquemas de poder existente à época. Não era candidato indicado por ninguém. Era o fim do militarismo e Saquarema, pela primeira vez na sua história, dava um grito de independência. Rompia-se naquele instante o tradicional “fidelismo” herdado dos tempos do Império.

- Dá pra citar alguma coisa de positivo? – pergunto.

- Uma, que os saquaremenses nunca deveriam esquecer seria o bastante. Gritando “Tira esse trem daqui”, enfrentou Deus e todo mundo pra evitar a destruição de toda essa encosta que vai do Sobradinho até a Pompéia, com a conseqüente destruição e ou descaracterização de monumentos históricos e naturais de valores inestimáveis. É possível que um dia algum “saquarema” se lembre daquele trem que ninguém vê, porquê passa debaixo da cidade, em túnel aberto na montanha, sob pressão dele. Resgatou nichos importantes da cultura local, dentre eles a famosa Casa da Ópera, devolvendo-o à cidade. Construiu os interceptores sanitários nos principais rios que cortam a cidade, já com visão ambientalista, hoje, completamente destruídos e relegados ao esquecimento. Foi o único a administrar a cidade com um Plano de Governo sobre a mesa.

- Dizem que era autoritário...

- E esse não é? Esse é é mais dissimulado. Teve erros, e muitos. O maior deles, foi não fazer alianças e desprezar as lideranças que surgiam com a nova ordem política instaurada no município. Mas encarava; falava de igual pra igual, com o povo, com autoridade, fosse quem fosse, olhava dentro do olho. Gostava de desafios, altos desafios...

- E Lulu Bragantino?

- Foi apenas mais um erro do último alcaide. Passou pela Prefeitura sem se dar conta dela. Devia se dedicar à poesia; não percebeu que em política até os romântico tem que ter coragem de endurecer, mesmo que sem perder a ternura! Já dizia o grande Che Guevara.
Penso que a velha já não é mais a mesma. Esses devaneios talvez sejam sintomas de perda de lucidez, diante de tudo que falam de bem dessa administração, do peso dos oitentão na cacunda, e do mal que o alcaide a que defende agora, fez, no dizer de seus ex-aliados.

- Ora, uma administração que consegue montar uma frota de ambulâncias, pra carregar gente pra baixo e pra cima, não se sabe a que título, e não consegue construir na cidade uma unidade mínima de pronto atendimento para amenizar o caos da saúde... uma administração em que para se conseguir um frasco de insulina num posto de saúde é preciso telefonar e interagir diretamente com a pessoa do Prefeito, e ficar lhe devendo esse favor... uma administração onde o Prefeito é absoluto e amordaça o Poder Legislativo... uma administração que se fundamenta e mantém na prefeitura toda uma estrutura familiar e assessores de idoneidade e capacitação duvidosa, em atividades suspeitas ou de proselitismo político exclusivo... uma administração que se sustenta através da doação de lotes, cesta básica e material de construção... uma administração que fica oito anos se vangloriando de ter construído uma ponte... e que vai nos deixar como legado, dentre seus maiores feitos, um lixão e um cemitério... para uma cidade que poderia ser a Meca do turismo na Região Metropolitana... tchau, tchau... governinho de merda... esses que tão aí dentro, tudo puxa saco! Arghhhh!!!

Voltou em direção à escada. Lá dentro a voz rimada de dona Luluzinha. Poema novo. Um acróstico sem dúvida: BEM VINDO OH, SUCESSOR! Ela mesma compôs. Realçava as virtudes do moço que vai sair, e anuncia augúrios de sucesso para o ungido. Que seja eleito, para o nosso bem. A mensagem ficou difundida no destaque sonoro de cada uma das letras que compunham a frase. É assim que se faz acróstico.

Calados, todos, são o expectro da compenetração diante do vinho e do pão. Bateram palmas.

“Por acaso sou eu Senhor?”

Ninguém se atreve, pois este não é Jesus e a cidade é um túmulo.

“Está servida a ceia, senhores... fazei isso... eu vos ordeno; em breve estarei convosco, novamente”. - pensou fazer o fechamento com essas palavras, mas seria uma demasiada ousadia. Fosse em outros tempos, estaria coroado e glorificado como divindade. A culpa não era dele. Afinal, seu pai não passou de vice.  Tivesse sido prefeito antes, talvez pudesse vir a ser comparado ao Filho do Homem. Entretanto deixava configurada uma certeza; ele ordenava, mesmo, e voltaria um dia. Sua aparência, entretanto não o distanciava muito dele, faltava-lhe porém os cabelos longos.

Antes de começar a descer as escadas, a velha para e me olha nos olhos: “Melhor é puxar saco que puxar carroça, não acha não, meu caro escriba? A propósito,  já pensou em falar poesia algum dia?!”

Foi-se.
Wagner M Martins
Enviado por Wagner M Martins em 11/09/2006
Reeditado em 12/02/2007
Código do texto: T237683

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Sobre o autor
Wagner M Martins
Sabará - Minas Gerais - Brasil, 64 anos
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