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GUERRA ÀS FRALDAS DESCARTÁVEIS

Sou ao mesmo tempo a favor e contra as fraldas descartáveis. Explico: sou a favor porque acho impraticável um varal de fraldas de pano, igual eu via lá em casa quando minha irmã era pequena e minha mãe sofria com isso. Imagine sair com a criança pra rua e trazer pra casa duas ou três fraldas de pano recheada de cocô para serem lavadas. Em pleno sáculo 21, não dá. É inegável o conforto e a praticidade trazidos pelas fraldas descartáveis e o lenços umedecidos.

Sou contra inicialmente por questões ecológicas. Como sabem, um dos lemas do consumidor ecologicamente correto é consumir o mínimo de descartáveis e não recicláveis. O lixo é um dos principais problemas da modernidade. Não consigo imaginar a reciclagem de fraldas repletas de cocô e xixi.

Em segundo lugar sou contra por questões de bolso. Essas fraldinhas são danadas de caras, e a despeito de o governo afirmar que não há inflação, as benditas insistem em subirem de preço a cada dia. E as crianças não têm consciência, são capazes de obrar numa fralda novinha que acabou de ser colocada sem o menor drama.

Ok, vamos deixar de hipocrisia. Pode-se inverter a ordem dos motivos pelos quais sou contra. O principal é o bolso mesmo. Evidentemente preocupo-me com questões ecológicas, e as citei primeiro para causar boa imprensão, mas o que me atormenta mesmo são os gastos.

Aqui em casa temos nos empenhado em doutrinar nossa filha Eduarda de 2,5 anos a usar o vaso sanitário (leia-se, economizar e abolir as fraldas), até o momento sem sucesso. O processo porém tem se mostrado divertido e cômico. Não poderia ser diferente, já que está sendo conduzido por marinheiros de primeira viagem.

Inicialmente adquirimos um piniquinho com o formato de um carro. Ela então se sentava nele e a última coisa que pensava em fazer era cocô e xixi, o que aliás dei-lhe razão. Já que fazer no carro do papai é errado, porque seria correto fazer no seu próprio carro? Estúpido é quem fabrica algo assim. Pensando bem, eles fabricam porque sempre tem os idiotas que compram. O mais interessante é que apesar do carrinho não ter rodas, minha filha saia arrastando-o pelo chão da casa causando arranhões no piso e levando a mãe às raias da loucura.

Numa segunda tentativa compramos um adaptador para o vaso sanitário. O problema é que não temos confiança em deixá-la sozinha sentada lá pois é alto e portanto perigoso. Então alguém segura em seu bracinho e fica dizendo assim:

--Faz xixi. Faz cocô. Faz força.

E ela, muito sacana, geme e faz careta mas não sai nada.

--Vamos, não temos o dia todo.

E nada. Ela arreda o bumbum, olha para o fundo do vaso, dá um sorriso pra gente. E tome caretas e gemidos. Um novo sorrisinho maroto, e nada.

Daí, tão logo ela desce e veste a calcinha, em questão de minutos o tão esperado (ou agora inesperado) dejeto vem, com todo gás (com duplo sentido).
Pensei a respeito e conclui que esse é o tipo de coisa que não dá pra fazer sob pressão. Imagine-se sentado numa privada e alguém com pouca paciência do seu lado dizendo: Vamos, bota pra fora, não temos todo tempo. Provavelmente não dará certo. Eu por exemplo, preciso de paz, tranqüilidade, para o que considero um momento intimo. De preferência folheando uma boa revista ou jornal. No meu banheiro não falta.

Voltando à minha pimpolha, já que no carrinho ela não fazia, e no vaso de adulto não tinha a tranqüilidade necessária, a saída seria comprar um vaso para criança, do tipo troninho. Assim fizemos. Escolhemos um com o urinol removível para facilitar a limpeza, educativo e higiênico, conforme prometia a embalagem. Ôpa, é disso que precisamos, pensei logo.
Cometemos a burrice de embrulhar em papel de presente entrega-la à noite. Ela gostou tanto que foi um custo pra dormir. Queria passar a noite sentada no bendito troninho. A festa continuou no dia seguinte e perdura até hoje. Ela senta no vasinho, de repente fica de pé, levanta a tampa, pega o tal do Urinol removível e sai com ele pela casa afora. Ainda agora no instante em que estou no computador, concentrado digitando este texto, eis que chega ela com o urinol removível e o coloca sobre o teclado, quase me matando de susto.

-- Papai, olha o piniquinho da Duda.

Cocô e xixi que é bom, nada. Pelo menos, não onde deveria.

À tarde um desses programas educativos da TV mostrava uma pegadinha onde os atores colocavam um penico na cabeça. Minha filha Eduarda veio chegando com o seu agora inseparável urinolzinho removível nas mãos, e eu mais que depressa, peguei o controle remoto e zap, mudei de canal. Acho que ela já é inspirada o bastante, não precisa de incentivos.

Conclusão, estamos num dilema. O que fazer? Já pensei em colar o urinolzinho removível com cola super Bonder e torná-lo fixo, mas temo que seja pior. Ela poderá passar a carregar o troninho inteiro, causando mais confusão ainda. Acho que não nos resta outra saída a não ser ter paciência e conformar com o consumo de fraldas mais algum tempo.

Dizem que os pais ficam querendo que as crianças cresçam para diminuir o trabalho, mas depois reclamam, com saudades dos filhos quando pequenos. Pode até ser. Admito que tenho um pouco de saudades de minha filha bebezinho. Mas algo que com certeza não sentirei a menor falta são os gastos com fraldas descartáveis.

Tem dado trabalho, mas tem sido divertido. É como se diz por aí: Tá ruim mas tá bão.
João Eduardo
Enviado por João Eduardo em 16/09/2006
Código do texto: T241557
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Sobre o autor
João Eduardo
Muriaé - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
12 textos (1783 leituras)
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