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CABIDES

                                     Não são apenas as peças de roupa de grandes desfiles que não encontram seu posto nas ruas. Seus cabides também. Corpos esguios, esquálidos, esqueléticos, anoréxicos. Meninas e mulheres do mundo, para se encaixarem nas roupas das passarelas, punem-se com cirurgias e fome. As incapazes para a fome ou pobres para cirurgias, comem e vomitam. Bulímicas. Modelos, por sua própria semântica, são referências e paradigmas.
                             Por causa do predomínio da forma sobre o conteúdo, tenho sido desconfiado com a moda. E vou além. Detesto formalidades e protocolos até mesmo na literatura. Por isso, fui vitimado por sóbria alegria ao ler - no caderno Donna do jornal ZH do último domingo - que a semana de moda mais tradicional da Espanha impôs um limite às formas das modelos. Limite inesperado e desconcertante para o mundinho fashion. Se, antes, as manequins precisavam passar a água e alface nas vésperas de desfiles, desta vez exigiu-se o contrário. Nenhuma modelo como massa corporal menor que 18 poderá desfilar. O IMC – índice de massa corporal – se alcança dividindo o pelo pela altura ao quadrado. De acordo com especialistas, um adulto saudável deve ter seu IMC entre 18,5 e 24,9. Fora às magérrimas!
                          Mesmo com a irresignação da indústria da moda, o governo regional de Madrid, que patrocina o evento, não voltou atrás. E justifica sua decisão ante o forte impacto que a moda tem sobre as pessoas, sobretudo as adolescentes. Portanto, nada de corpos idealizados, ou que remetam à bulimia ou à anorexia. A indústria da moda tem responsabilidade com a imagem feminina que propaga.
                          Não sou especialista fashion.  Mas concordo com os espanhóis. Uma vida saudável desfila em equilíbrio. Se a obesidade mórbida é combatida pelos governos e pelos médicos, a magreza extrema também deve sê-lo. A estética e a saúde são gêmeas belíssimas. Não precisam andar grudadas como siamesas, mas nem se digladiando como irmãos por herança.
                                    O mundo da moda parece querer expiar seus pecados. Após a decisão do governo madrilenho, Letizia Moratti, prefeita de Milão, outro grande centro da moda, informou a um jornal italiano que o veto às magricelas pode chegar à semana milanesa. Se as coisas andarem nessa cadência, Gisele Bündchen terá mesmo de investir na carreira de atriz. Ou voltar a Horizontina para fartar-se com muita comida alemã.
                                     Vejo coerência em algumas restrições ao mundo midiático. Pouco adianta o governo, com o dinheiro de todos, gastar milhões em saúde, se os meios formadores de opinião puxarem o trem contra a locomotiva. Baniu-se o cigarro dos horários nobres, reduziu-se a propaganda de bebidas alcoólicas, e agora o mundo da moda começa a questionar seus padrões. Sempre ouvi falar que num bom cabide qualquer roupa fica esplêndida. Agora descobri que um bom cabide não é apenas um objeto alongado e esguio. Um bom cabide precisa ter muita saúde, e isso não afronta à beleza. As mulheres do mundo agradecem.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 17/09/2006
Código do texto: T242636
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5112 leituras)
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