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PRAIA: A MECA DOS MINEIROS

Existem certos tipos de lazer que se tornam modismos impostos pela sociedade. É o caso do passeio anual ao litoral, sobretudo para os mineiros que não foram abençoados com a presença salgada e majestosa do oceano. Assim quando chega o verão é aquela corrida enlouquecida para diversas praias, de preferência nos litorais fluminense e principalmente no capixaba. Em janeiro minha cidade parece se mudar para o Espírito Santo. No carnaval então a debandada é geral. E vão não somente os automóveis mas vários ônibus especiais, quer dizer, vão os chiques e os farofeiros. A cidade fica deserta.

Quem não se enquadra a esse modelo pré-estabalecido de lazer (?) está totalmente fora do contexto. Portanto quem não for lá “salgar o rabo” pelo menos alguns dias é olhado com desconfiança. Ano passado uma senhora minha vizinha, pessoa boníssima e muito querida perguntou-me:
---Quando vocês vão à praia?
Notem bem que ela perguntou quando, e não se iríamos à praia. Não considerou a possibilidade de não irmos, ou de preferirmos outro roteiro como por exemplo visitar alguma das belíssimas cidades históricas de Minas. Como se a ida na praia fosse obrigatória como por exemplo o pagamento do IPTU.
---Não senhora, nós não vamos à praia este ano, respondi.
Ela arregalou os olhos e me olhou como se eu fosse de outro planeta:
---Não! Mas vocês não podem deixar de ir. Todo o mundo vai. Tadinha da Eduarda (nossa filha).
Quis responder que não havia nenhuma exigência legal nos obrigando a ir mas como ela é gente boa decidi ser educado e paciente. Forneci então uma dúzia de motivos pelos quais não iríamos, mas notei que ela não se deu por satisfeita e acho que nem dormiu direito naquela noite.

A coisa está deste jeito, a coerção social está cada vez mais irresistível. Como se não bastasse determinar o modo das pessoas se vestirem, as grifes badaladas, o modelo do carro, está ditando também as regras do laser. Assim em vez de descontração e relaxamento, a viagem de férias torna-se algo estressante, pois também ai é preciso representar um papel esperado e aprovado pela sociedade.

Um amigo me confidenciou que não estava em condições financeiras para viajar mas que iria de qualquer forma, pois não suportava mais a pressão da esposa e dos filhos adolescentes. Os meninos alegavam que todos os colegas já estavam na praia. A esposa por sua vez usava a possível frustração das crianças para pressionar, mas na verdade estava é preocupada com o olhar de deboche das amigas que voltariam bronzeadas e ela ali, toda branquela. O cheque especial, o empréstimo no agiota, tudo isso são meros detalhes pois o principal é manter o nível.

Neste verão resolvi ser normal e viajar para o litoral. Escolhi a pequena e tranqüila Piuma, no Espírito Santo. Saímos numa quarta-feira com intenção de retornar na segunda. O único problema é que me esqueci de combinar com São Pedro e ele mandou água à vontade.
Como me Instalei num hotel a alguns metros da praia, pude observar a movimentação frenética dos mineiros que lotavam a cidade apesar do tempo ruim. Veículos de toda parte do estado: Sete Lagoas, BH, Uberada, Cataguases, Carangola, Monlevade, Muriaé e assim por diante. Quando a chuva dava uma trégua e o sol ameaçava timidamente mostrar sua cara, a mineirada se assanhava. Começava o desfile de pessoas sorridentes passando em direção à praia carregando cadeiras, guarda-sóis, alguns mais precavidos usando chapéus para não fritar os miolos e óculos escuros para proteger a retina das ações do Astro Rei. Daí a alguns minutos a chuva voltava e as mesmas pessoas retornavam carrancudas, maldizendo o tempo com os guarda-sóis (agora guarda-chuvas) abertos para se protegerem dos pingos gelados e cortantes. Este ritual patético se repetia várias vezes por dia. Ouvi um comerciante dizer que nunca vendera tanto baralho e que já havia providenciado um estoque extra, pois segundo as previsões da meteorologia a chuva continuaria. E os mineiros também.

No sábado amanheceu chovendo novamente, e como já havia combinado com a família, juntamos as trouxas e pé na estrada de volta pra casa. Já não agüentava mais de saudades da minha cama, do sofá da sala, dos livros que arrependi de não ter levado, enfim de minha rotina normal. Uma vez na BR 101, estressei-me com a chuva forte e o grande movimento. A estrada estava repleta de motoristas incautos e inexperientes fazendo barbeiragens. Observei pelo retrovisor interno minha filha, cochilando no banco de trás, toda marcada pelas mordidas dos pernilongos piumenses. Neste instante perguntei pra mim mesmo:
---O que é que eu vim fazer aqui?
Não ousei responder.
E ali mesmo comecei a traçar planos para o próximo verão e prometi não cair noutra daquela facilmente. Pretendo curtir o fato de minha filha não ser ainda adolescente e se divertir tanto na praia quanto numa piscininha inflável. Aliás ela preferiu a piscina do hotel ao mar. Já estou pensando para uma próxima oportunidade levá-la para passear na Maria Fumaça em São João Del Rei. Tenho certeza que ela vai adorar.

Pelo menos após cumprir o passeio protocolar-ritualístico de visitar o mar, conquistamos imunidade por um ano inteiro, e durante esse período ninguém irá nos olhar com assombro como se fossemos extraterrestres. E quando alguém nos perguntar quando fomos à praia, diremos que foi em janeiro, contudo sem entrar em detalhes. E quando disserem:
---Vocês acreditam que a Fulana não foi à praia este ano?
Responderemos fazendo cara de escandalizados:
---Nãaaaaaaao?! Mas que absurrrrrrrdo.
João Eduardo
Enviado por João Eduardo em 17/09/2006
Código do texto: T242672
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Sobre o autor
João Eduardo
Muriaé - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
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