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DOAÇÃO

Saio de casa e como quase sempre faço, desço caminhando pela rua rumo ao centro da cidade. Logo de cara uma menina vesguinha aparentando uns 9 anos de idade me aborda pedindo um dinheiro para comprar açúcar. Mais abaixo, do lado do supermercado a jovem mãe maltrapilha com duas crianças está no seu ponto habitual com a mão estendida e o costumeiro me da uma ajudazinha, moço. Continuo a caminhar e a senhora negra e magra se encontra como sempre na calçada ao lado da Casa Bahia também no seu trabalho de pedir dinheiro aos transeuntes. Na entrada do Banco do Brasil o rapaz corcunda dentro de um carrinho de mão que sempre é conduzido por outro, segundo ele um primo, pedia auxilio às pessoas que entravam na agência.

É sempre assim, desde que faço este trajeto, há pelo menos 7 anos, esta cena é comum. Outro dia pus-me a refletir e não me lembrei de uma única vez em que dei algo a esses pedintes. Na verdade sempre pensei que dar dinheiro a mendigos na rua fosse errado, e que o correto seria ajudar as instituições que os assistem, recolhem, alimentam e tratam de sua saúde. Desta forma estaria ajudando a de fato retirar os mendigos das ruas , o que seria maravilhoso.

Fazer caridade não é tão simples assim, sempre temos receio de doar de forma errada e sermos vitimas de alguma pilantragem ou vigarice. De vez em quando a mídia noticia a existência de falsos mendigos, tendo inclusive mostrado imagens de mulheres que chegavam no centro da cidade do Rio de Janeiro bem vestidas e que após se vestirem de trapos, fingiam-se de mendigas para arrancar dinheiro das pessoas. Estamos sujeitos a isso, como também a dirigentes corruptos que desviam dinheiro das instituições ditas filantrópicas e assistenciais. É um risco.

A doação seria bem mais simples se nos despíssemos de todo e qualquer preconceito e arrogância. A gente quer dar mas quer ter a mais absoluta certeza de que o outro está mesmo na merda e que nossa chorada esmola será de fato utilizada para comprar remédios ou comida e não cachaça ou cigarro.

E quanto ao mendigo de rua, será que não deveríamos respeitar seu livre arbítrio, já que ele tem todo o direito de ser um pedinte independente e não querer se submeter a nenhuma instituição? Talvez julgue a humilhação de pedir nas esquinas menor que a humilhação sofrida na maioria instituições que maltratam e abusam de seus internos. Afinal , com diz a música, a gente não quer só comida, mas também respeito, carinho, consideração e dignidade. E mendigo também é um ser humano como qualquer um de nós. E como tal tem até direito a um traguinho de quando em vez, porque não?

Lembro-me de uma jovem mãe em dificuldades que solicitou ajuda a uma instituição da qual eu participava e recebeu vários donativos em forma de alimentos. Na reunião seguinte um membro levou a grave denúncia de que essa senhora fora vista tentando vender uma sacola de arroz e outros itens, parte dos donativos que recebera. Ela foi criticada, execrada, apontada como ingrata e indigna de confiança. Foi para a lista negra dos que não mereciam ser ajudados. Não passou pela cabeça de ninguém que ela talvez precisasse comprar um creme contra assaduras, pagar uma conta atrasada na farmácia ou comprar um agasalho para os filhos. Simplesmente a enchemos de alimentos sem nos importarmos de investigar suas reais necessidades e no final ainda foi sumariamente condenada sem ter ao menos direito à defesa. Isso lá é caridade?

Como escreveu Kalil Gibran, nós não temos nada, não somos nada, não levaremos nada quando batermos as botas. E conseqüentemente não doamos nada, pois quem doa é a vida, o universo. É a vida doando à vida. E nós que nos arrogamos doadores somos na verdade simples testemunhas.

Pensando nisso um belo dia separei algumas moedas e desci a rua para meu trajeto de rotineiro. Hoje vou atender aos pedidos de todos que encontrar, pensei. Passei em frente ao supermercado e para minha surpresa a mãe maltrapilha não estava lá. Estranhei, pois sua ausência era um fato raro. Passei em frente à loja das Casas Bahia e a Dona Maria misteriosamente também não estava. Continuei meu trajeto procurando o rapaz corcunda do carrinho de mão que sempre ficava por ali, e nada. Será que os mendigos estão em greve?, pensei. Entrei no banco, fiz o que tinha que fazer, sai novamente e nada dos mendigos. Nem sequer as crianças que sempre abordam as pessoas se aproximavam de mim. Será que a vida estaria me pregando uma peça?

Tomei o rumo de casa pensativo com as moedinhas intactas no bolso. Ao passar por uma esquina o vendedor de loteria estendeu a mão com os bilhetes e como sempre berrou azulzinha, só um real. E como sempre passei direto e não comprei. De repente estaquei o passo, apalpei as moedas, peguei-as e contei separando um real. Voltei para o vendedor e comprei um bilhete da azulzinha. Fui pra casa pensando que se ganhasse o premio doaria parte para instituições de caridade. Dez por cento? Era pouco. Trinta por cento? Quem sabe meio a meio? Bom deixa ganhar primeiro, depois eu decido.

Não ganhei. Mas depois desse dia sempre entrego alguma moedinha para as pessoas que me pedem. Digo entrego pois não estou doando, estou apenas testemunhando. E me lembro também daquela historinha do discípulo que pergunta ao mestre: Mestre até quando devo doar? E o mestre responde: Doe até que a vida não te doe mais.

Assim tenho tentado fazer, sem preconceitos, feliz por estar do lado de cá.
João Eduardo
Enviado por João Eduardo em 18/09/2006
Código do texto: T243560
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Sobre o autor
João Eduardo
Muriaé - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
12 textos (1784 leituras)
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