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Pequeno amor

O pequeno amor de minha vida está completando 25 anos hoje. Dentro de poucos dias, também eu estarei aniversariando. Três vezes essa idade. Tenho 75 anos e hoje moro num asilo, minha pernas não funcionam muito bem e, às vezes, nem minha cabeça. Só o que ainda funciona (nem tanto) é o meu coração. Ele ainda sente saudades, ele ainda sofre, ele ainda lembra. Sempre fui um homem muito ativo, amigo de todos e sentimental. Por isso, é terrível perceber que meu corpo, que tanto me serviu durante décadas, hoje se tornou minha prisão, me impedindo de sair correndo, andar pela chuva, colher flores, andar no campo. Mas trocaria qualquer sensação do mundo, qualquer felicidade que tive por um último abraço de minha filha.

Ou, talvez não. Talvez ela prefira preservar a imagem de um pai herói do que um farrapo humano. Lágrimas me vêem aos olhos quando lembro a primeira vez que a segurei no colo, após ter recebido o sopro da vida. Eu a amei desde o princípio e a amarei até o fim. Nos olhos de minha filha, percebi que Deus existe. Eu a segurava, tão pequenina e frágil, e eu, gigante e forte, chorava. Meu Deus, como ela mudou minha forma de ver o mundo. Como era maravilhoso saber que aquele pequeno anjo que dormia de forma tão singela, mexendo a ponta dos pés, era parte de mim. Perdia horas vigiando o seu sono, passando a mão em seus cabelos. Que orgulho tinha de vê-la brincando com as outras crianças no jardim, tão alegre, tão meiga. Assim era minha filha pequena, doce, meiga, sonhadora...

Ela cresceu e em cada etapa de sua vida, eu ficava encantado com o ser humano que se desenhava, que se projetava para o mundo. Como foi lindo vê-la com aquele vestido de princesa em seus 15 anos, de vê-la se encantar com os leõezinhos no circo, de levá-la para passear, de sonhar junto com ela, de vê-la se lambuzar com maça do amor. São tantas lembranças, tanta vida.

Minha filha hoje completa 25 anos. Ela foi linda desde o princípio. Sei que ela tem muito de mim dentro de seu coração, sei que, em alguma parte, ela ainda me ama. Sei que ela herdou um pouco de meu espírito, de minha carne, de minha genética. Por tudo isso e por tanto mais, conheço o coração de minha filha e até compreendo que hoje ela esteja longe do abraço de seu velho pai. Não quero piedade dela. E ela sabe disso. Ela sabe que sou orgulhoso (e ela herdou isso também).
Sei que estou morrendo e que a qualquer momento, meu coração irá parar. Não sei quando, nem onde, desconheço o meu destino. Mas sei que não importa o tempo, nem a distância. Não importam as feridas e nem as cicatrizes. O pequeno amor de minha vida está completando 25 anos hoje. Não sei que roupa ela veste, onde trabalha, se ela reza à noite, se a asma ainda a incomoda, se ela ouve música, se ela gosta de filmes ou se sente saudades. Sei que amo minha filha e, antes de meu coração parar de bater, antes de dar meu último suspiro, meu último pensamento estará voltado para ela, Thaís, minha pequena filha, o meu pequeno anjo que hoje completa 25 anos.
Eu te amo, minha filha. Feliz aniversário.
Márcio Brasil
Enviado por Márcio Brasil em 20/09/2006
Código do texto: T244726

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Sobre o autor
Márcio Brasil
Santiago - Rio Grande do Sul - Brasil
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