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Medos

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Você tem medo de alguma coisa? Medo, mesmo, daqueles que fazem o frio percorrer a espinha, suar em bicas, seu couro encolher. Tem? Eu tenho.

Destemida e corajosa para tanta coisa que assombra um monte de barbados truculentos e armados, morro de medo, meus esfíncteres perigam relaxar me deixando numa situação muito delicada... à vista de lagartos, lagartixas, jacarés de qualquer tamanho, ao vivo ou simplesmente publicados. Dar de cara com um lagarto, nas revistas que seja, me torna uma irracional criatura que joga longe a edição, grita atraindo olhares curiosos e, ainda por cima, me deixa vulnerável às críticas, ridícula e desprotegida.

Medo é irracional, qualquer um sabe disso. Mesmo assim, levei tal fobia para o psiquiatra, a conselho de amigos e parentes. Não resolveu: acho que ele passou a ter medo também, por tabela. Ao descrever minha sensação, lembro-me de ele se movimentar na cadeira de forma inquieta. Pode  ter sido impressão, não sei não...

Tento, juro! Entender a razão da fobia. Herdei, sim, em parte, mas a reação, assumo, é minha mesmo. Agora, por exemplo, nesse exato momento em que penso no assunto, me deu um frio na barriga, um pedaço de pano da roupa que visto resvalou pela perna e já estou com ambas sobre a cadeira, embora continue a escrever, meio desconfortavelmente... Deve ser um progresso, quero crer, o fato de permanecer aqui.

Revistas que assino há anos sempre trazem reportagens sobre esses bichos, além de fotos de lugares onde vivem. Nas edições antigas tais páginas foram grampeadas. No duro! Estão ali resguardadas dos meus nervosos olhos. E as novas, aprendi por força das circunstâncias, passam por um crivo familiar antes de eu abri-las... Isso não evita que volta e meia ainda leve um bom susto. Voltar de viagem e entrar em casa é outro sacrifício. Lagartixas e lagartões verdes adoram minha casa. E ficam muito à vontade na minha ausência. Pior: acho que convocam todos os colegas da redondeza para festinhas, na falta da dona da casa. Parece perseguição.

Histórias sobre esses monstros, tenho de monte. No Brasil, de norte a sul. No estrangeiro, até hoje choro, por exemplo, quando me lembro que não vi a ilha de Capri inteira, porque tinha que atravessar uma alameda cheia de árvores (e desses bichos). Em Pompéia, era um passo entre as ruínas e dois gritos quanto esses monstros pulavam (literalmente) sobre meus pés. Foi a mesma coisa em Santorini. Em Aruba dei tanto vexame que acabei por ficar conhecida de alguns hóspedes: tinha que atravessar a área da piscina inteira antes de chegar no mar. Uns trinta metros que me pareciam trezentos mil – infindáveis, portanto, pois durante o percurso tinha que olhar dos lados, em volta e para cima. Nunca vi tanto lagarto na minha vida. Gritava aqui, pulava ali, andava uns metros, sozinha, porque meu marido se escondia de vergonha e me ignorava. Somente a turma de alemães me ajudava. Morrendo de rir da ridícula mulher, eles já me avisavam, nos dias que se seguiam, qual direção seguir e evitar os monstros. Não, não entendo alemão... mas compreendo a língua do pavor.

Já corri riscos pedindo ajuda a desconhecidos, já me expus, já me escancarei, já sapateei, mas não perco o medo. Porque estou falando nisso? Porque estou indo para os Lençóis Maranhenses realizar antigo sonho e estou antecipando os momentos de angústia, de tristeza, antevendo o medo que vou enfrentar. Dizem, eles correm quando vêem a gente. Basta bater os pés. Ninguém acredita, mas eles sempre correm na mesma direção que eu.  Então... aos Lençóis! Vamos ver no que dá!
Lúcia Helena
Enviado por Lúcia Helena em 22/09/2006
Código do texto: T246490
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Sobre a autora
Lúcia Helena
Franca - São Paulo - Brasil, 72 anos
15 textos (824 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 00:23)
Lúcia Helena