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Nosso quebra-mola de cada dia

Pobre adora um quebra-mola.

É sério! Nunca perceberam? Ora, bolas, pois vejam por si mesmos as ruas mais miseráveis da sua cidade, os bairros mais pé de chinelos da sua redondeza. Verão que pobre que se preze (aquele com carteira assinada de desidratação e falta de saneamento básico) adora, ama mesmo, um quebra mola.

Não, não venham me dizer que rico também coloca quebra mola. Não, senhores. Quebra mola de rico se chama "redutor de velocidade".

"Ah, mas é tudo a mesma coisa"

Não é não. Redutor de Velocidade é do tamanho e da largura estipulados pelo Detran, é pintadinho, tem placa de sinalização informando aos motoristas, e até ajuda a embelezar a ruazinha, cheia de arvorezinhas e plantinhas (coisa de viado mesmo).

Mas pobre faz quebra mola sem ajuda do governo, provando que gente sem dinheiro e com os pés descalços também é gente que faz.

Há vários tipos de quebra-molas de pobre. Os feitos com troncos de madeira (de preferência com um prego bem enferrujado apontado pra cima, ou para furar o pneu dos carros ou para transmitir tétano aos molequezinhos com a barriga cheia de verme e o nariz escorrendo).

Os feitos improvisados com paralelepipedos. E esses são os preferidos dos velhinhos tomando cachaça no bar da esquina. Eles ficam lá apostando quantos para-choques o quebra-mola vai amassar durante o dia. E quando quebram, eles ainda dão apoio ao motorista dizendo que aquele tipo de coisa é um absurdo. Bando de sádicos.

Há aqueles que são simplesmente burados, valas feitas de ponta a ponta da rua torta. O som da suspensão dos automóveis (bem coisa de rico né? Automóvel) quebrando é como música para os pobres que votam no Lula.

Pobre não pode ver uma rua recém asfaltada. É com uma excitação quase que sexual que eles constroem seus quebra-molas.

O dedo coça, sabe.

Uma vez eu perguntei a um pobre que adorava ir ao shopping por causa das escadas rolantes. "Porque na sua rua tem quebra-mola se não passa nenhum carro?". "Um deputado foi lá no bairro com a caravana dele, mais de cinquenta carrão desfilando todo proza, aí nóis construiu pra protege nossas criança". "E agora, porque não tiram?". "Porque deu um trabalho grande, e é mais melhor com eles".

Pobre não tem mais o que fazer mesmo. Trabalham oito horas por dia por um salário mínimo e ainda constroem quebra-molas. São uns vagabundos mesmo.

E sem essa de prefeitura. Pobre quando vê uma quebra-mola que a prefeitura acabou de construir vai lá, destrói tudo, e constrói o seu. Mãos ábeis desses pobres que votam no Garotinho e na Garotinha.

Essa obsseção deveria se transformar em tese de mestrado. Taí coisa que pobre nunca vai ter: mestrado.

Agora se me dão licença tenho que ir embora. Vou ajudar a galera a construir um quebra-molas aqui na minha rua. Ê troço bom da porra, gente!


Danielfaraó
Daniel Gonçalves
Enviado por Daniel Gonçalves em 23/09/2006
Reeditado em 19/10/2006
Código do texto: T246985
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Sobre o autor
Daniel Gonçalves
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 32 anos
14 textos (822 leituras)
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Daniel Gonçalves