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Amigo para toda a vida.

     Segunda de manhã, aula de anatomia. Assunto: As Emoções. Nesse dia me convenci realmente que as emoções não são pensadas. No cérebro, duas áreas. O local dos pensamentos propriamente ditos, onde se raciocina e se descobre, onde se planeja e se escolhe, chamado pelos médicos de néocortex, mas que na verdade são aqueles sucos e curvinhas que parecem minhocas em latinha de pescador. Descobri que  nosso cérebro não é inteiro preenchido por aquela massa. Mais ao fundo achamos o sistema límbico, onde se encontra o circuito de Papez. O sistema límbico, bem no centro de nossas mentes, não difere da área pensante somente pela localização, mas pelos tipos de neurônios, organização celular e funções, sendo essa última, principalmente processar as emoções.

     O sistema límbico é onde ficam armazenadas todas as nossas “cagadas” que fazemos sexta à noite depois de umas skols a mais, a lembrança do nosso primeiro beijo, aquele amor do passado, a saudade, o medo, a tristeza, o cheiro daquela comida que comemos e estava estragada e até mesmo a fome, sede e o desejo sexual. Diz a lenda que nos animais inferiores - um peixinho, o cachorro, as loiras (não resisti em colocar a piadinha) - o cérebro “emocional” seria mais desenvolvido que o "racional", até por que um veadinho encantado na selva não precisa pensar em como resolver uma equação algébrica, somente em comer,beber, cagar e fugir dos predadores quando o mesmo é atacado.

     Agora sei o porquê de não conseguir ir falar com aquela garota no baile, quando eu era adolescente, apesar de ela ter estado me olhando e sorrindo, numa linguagem corporal que dizia em altas e claras palavras que me queria, apesar de saber de tudo isso, não fui em seu encontro. Nunca fiquei com ela. Pois é, hoje eu não me culpo, pois sei que o meu "cérebro que raciocina" não participou dessa decisão, enquanto meu outro, que só me diz o que fazer sem explicar o porquê, me dominava. Aquela expressão que diz que, no homem, quando a cabeça de baixo pensa, a de cima não pensa é quase tão certa que só por um detalhe não é perfeita. Diria eu agora que enquanto a cabeça do “centro” pensa, a cabeça de “fora” não pensa e de acordo com o ditado, depois de nove meses vem a conseqüência.
 
     Fiquei mais feliz por descobrir que tenho esse "cérebro emocional” separado do meu "cérebro racional". Agora posso justificar minhas cagadas, botando a culpa no meu sistema límbico. As noitadas, as amantes, as promessas não cumpridas... E quando questionado pela esposa poderei dizer que foi “ele” e não Eu, que estava nu na cama com aquela mulher. Posso responder que os quilinhos a mais que ganhei ano passado não foram por minha culpa, foi “ele” que vorazmente devorou metade do pudim de caramelo que estava na geladeira. Foi “ele” quem, quando eu era criança, tomou o chocolate da minha irmãzinha e amarrou o rabo do cachorro na grade do portão.

     No futuro, quando eu ficar bem velhinho, sei que vou estar bem degenerado e meu raciocínio vai estar lento e cansado. Não vou conseguir reconhecer rostos e nem responder a perguntas difíceis. Mas uma coisa hoje me consola. Meu velho e amigo sistema límbico estará comigo, forte e ativo, pois a única coisa que vai me restar serão as lembranças das coisas importantes que passarei na vida. “Ele” estará lá, fazendo me recordar de todas elas, e quando eu estiver sentado em minha cadeira de balanço calmamente fumando meu cachimbo, as pessoas perceberão um sorriso em mim, daqueles de canto de boca, e sentirão então, que não estou sozinho...
Gilmar Takano
Enviado por Gilmar Takano em 24/09/2006
Reeditado em 16/09/2007
Código do texto: T247799
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Sobre o autor
Gilmar Takano
Londrina - Paraná - Brasil, 40 anos
19 textos (2514 leituras)
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Gilmar Takano