O povo eleito


      O Brasil é o país das piadas, faz-se piadas de tudo e todos. Qualquer assunto, fato ou acontecimento, relevante ou não, é motivo para picuinha: corrupção, má educação, futebol, a vida privada das celebridades, até desastres e crimes não passam impunes. Disse certa vez um presidente francês que o Brasil não é um país sério, frase que negou ter dito até a morte mas que, se de fato o disse, queria mesmo é ter dito que este país é uma piada. Negou a autoria da frase só por que era francês, pois se fosse brasileiro perderia a postura e até o amigo, mas nunca a piada. E ninguém entendeu o elogio do presidente francês, piada é coisa séria - não fosse o humor e o riso a vida não seria tolerável, não seria tão cheia de graça.

      As piadas mais tradicionais sempre têm explicação histórica, alguma motivação política ou religiosa. Algumas delas nós ouvimos desde a infância sem entender as suas raízes, como as piadas sobre judeus. Nunca entendi os motivos do estereótipo que os judeus carregam, do indivíduo pão-duro, mão de vaca, Tio Patinhas. Basta o amigo se esquivar da conta do restaurante para render-lhe a fama de judeu. Judeu é o sujeito que cria escorpião no bolso, atravessa um rio com um Sonrisal em cada uma das mãos sem deixá-los dissolver, dá tchau de mão fechada e por aí vai. Mas até que ponto esse estereótipo é verdadeiro?

      Recordemos uma cena do filme "A lista de Schindler", dirigido e produzido por um célebre judeu, Steven Spielberg. O ano era 1939, o exército alemão invade o sul da Polônia perseguindo os judeus ali residentes. Membros de uma família judia preparando-se para serem transferidos para um gueto na Cracóvia, engolem jóias enroladas em pedaços de pão transformando seus próprios estômagos em cofres. Em outro filme, "O Pianista", dirigido pelo também judeu Roman Polanski, há uma cena em que um pequeno menino judeu aparentando ter por volta de seis anos, vende caramelos aos seus compatriotas famintos e, apesar da pouca idade, negocia astutamente os caramelos mostrando-se insensível diante do horror da situação. Em ambas as cenas os judeus são retratados de forma mesquinha - sim, os judeus podem ser mesquinhos. Mas, quem não pode? Qualquer homem ou mulher, alemão ou russo, católico ou ateu, preto, amarelo ou branco pode ser mesquinho e avarento - os vícios humanos não são preconceituosos e não escolhem raça, sexo, cor ou credo.

      Mas deixemos os vícios e falemos das virtudes. Se desconheço as razões de existir o preconceituoso rótulo de pão-duro que os judeus têm, igualmente ignoro os motivos e as causas dos judeus se mostrarem um povo excepcionalmente virtuoso. Vasta é a lista das celebridades judias que se destacaram nas mais diversas áreas das atividades humanas. Apenas para citar alguns nomes: Albert Einstein, Bob Dylan, Charlie Chaplin, Franz Kafka, Jerry Lewis, Karl Marx, Marcel Proust, Sigmund Freud, Woody Allen e os já citados Steven Spielberg e Roman Polanski. No Brasil temos Clarice Lispector, Débora Bloch, Juca Chaves, Luciano Huck, Roberto Justus, Serginho Groisman e Silvio Santos como judeus célebres. E a lista continua.

      Com esta lista não é difícil ver o quão impactantes e significativas foram as contribuições do povo judeu. É realmente impressionante como este grupo étnico-religioso produziu tantas personalidades que transformaram o nosso modo de ver o mundo. Povo eleito por Deus e o mais perseguido da história, resistiram ao terror do holocausto e ainda assim fizeram ciência e arte como nenhum outro povo. E em 1948, quase dez anos após a perseguição e isolamento de judeus nos miseráveis guetos poloneses da Cracóvia e Varsóvia, o Estado de Israel foi declarado - conquistaram a sua própria Nação, o seu legítimo espaço.

      Mas o assunto é polêmico: os judeus reconquistaram as terras prometidas de onde um dia foram expulsos, ou simplesmente declararam o Estado de Israel em solo palestino de forma ilegítima? A discussão parece não ter fim. O certo é que, após as duas diásporas ocorridas há dois mil anos, os judeus se espalharam pelo mundo fixando-se, sobretudo, nos Estados Unidos. E por tudo de mais nefasto que o povo judeu sofreu, a humanidade lhes deve condolências, respeito e admiração. Salvo opiniões minoritárias, a comunidade internacional reconhece a legitimidade do Estado de Israel. 

      Hoje não há mais os abomináveis guetos, perseguições e extermínios. Os judeus não precisam recorrer a uma lista para sobreviver. Vivem e vivem bem, prosperam, em Israel, nos Estados Unidos e em muitos outros países, no Brasil inclusive. A comunidade judia orgulha-se dos seus e com razão.

      E só para não perder a piada, afinal, os judeus são ou não pães-duros? Com o humor sarcástico de Woody Allen, talvez respondesse: a Disneylândia derrotou o nazismo, no fim, venceu o Tio Patinhas.


Agosto de 2010

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