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Egoísmo: é moda?


     Aquele dedinho miúdo desde muito cedo já apontava para os narizes, e claro, sabia a saia justa que provocava. Algumas vezes ela causou embaraços do qual sua mãe não soube sair; era ardilosa, inteligente e acima de tudo muito atenta a tudo que passava ao seu redor. Estudava cada gesto, exigia atenção e se não era correspondida usava a arma que sabia funcionar; chantagem emocional.
    Quem olhasse para aquela menina linda, magrinha, com ar frágil de inocente, certamente se apaixonaria também, Helô era meiga e tinha gestos delicados, era dengosa e carinhosa com quase todos, porém se não gostasse de alguém ou de alguma coisa, ficava furiosa e não tinha pudores em demonstrar a quem quer que fosse.
 Helô era encantadora, tudo que vestia lhe caia como uma luva, tinha ares de burguesinha e custavam acreditar que era pobre, tanto que até ela se recusava a acreditar quando não podia ter o que queria.
    Mas ela não queria ser como as meninas da sua idade, ou pensava que não queria até se tornar adulta, sempre se comportou de forma diferente, sóbria no vestir, reservada nas conversas e comportamento discreto; seu guarda-roupa traduzia bem sua adolescência madura, preto, marrom, branco e bege, nada decotado, tudo muito sério. Foi uma adolescente adulta, trabalhava e estudava, mas que não lhe pedisse para ajudar nos trabalhos domésticos pois o "não" vinha de imediato, dizia ela que não gostava. Nunca conseguiu manter seu quarto arrumado, era um Deus nos acuda quando alguém entrava lá.
    Amadurecia a menina com o gosto apurado, sempre seletiva e refinada  e com o dedinho em riste para qualquer pessoa que ousasse discordar da sua maneira de ser ou agir. Entretanto parece que a maturidade não lhe trouxera aprendizado, embora com uma bagagem de estudo e formação bastante boa, a arrogância é que se tornou sua marca registrada. Não tinha papas na língua e nem pudores para dizer o que pensava onde quer que estivesse e para quem quisesse ouvir, sem descer do salto.
     Cresceu rodeada pela pobreza dos pais, conviveu com as dificuldades todas que uma criança pobre pode enfrentar, contando moedas para comprar o que a vida não lhe permitia, mas longe de perceber o esforço dos pais para que prosseguisse nos estudos e fosse protegida enquanto estivesse sob sua tutela, Helô se revelou uma criatura encantadora, bela, culta, educada e ingrata;  severa no julgamento dos pais, e em relação ao âmbito familiar. Para ela a sua graduação escolar se devia somente ao seu esforço, jamais ponderou que se avançava, alguém lhe dava suporte para que se dedicasse a construir sua formação.
    Como a maioria dos da sua geração, Helô tem valores diferentes em relação aos pais, tornou-se uma pessoa egoísta que deles se envergonha, da casa onde vivem e da vida que bem ou mal lhe dá sustento para seguir em busca dos seus sonhos.
    Quantas Helôs  estão nesse momento desdenhado suas famílias, olhando só para o seu próprio umbigo sem querer crescer como pessoa? Quantas Helôs estão nesse exato momento acreditando que o mundo lhes devem tratar com especial deferência porque são jovens, belas, inteligentes e arrogantes?
    Muitas. E vão constituir famílias, será que conseguirão conviver com os filhos egoístas que vão parir?
Angélica Teresa Almstadter
Enviado por Angélica Teresa Almstadter em 29/09/2006
Código do texto: T252430

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Sobre a autora
Angélica Teresa Almstadter
Campinas - São Paulo - Brasil, 62 anos
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Angélica Teresa Almstadter