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Apareço, logo existo


      Preparem os modelitos e ajeitem suas perucas, vivemos na era Big Brother. As câmeras e olhares indiscretos estão em toda parte, em cada esquina, escola, empresa, café e estacionamento. Todos querem ver e ser vistos, todos querem aparecer. O que importa não é o conteúdo e sim, a embalagem, o rótulo. Se não é visto, se não é mostrado, é como se não existisse. René Descartes deve se revirar em sua tumba quando fazem o trocadilho “apareço, logo existo”. Pensar hoje em dia não é mais tão importante assim, desde que, é claro, você tenha um corpo e rosto bonitos. E se souber rebolar e remexer as ancas o sucesso é quase garantido.

O que ocorre, porém, é que, infelizmente, a vida é generosa com poucos - nem todos nascem com a beleza mitológica de Narciso. Podem até ser narcisistas mas, Narciso, com sua estonteante e inebriante beleza, não. Bem-aventurados os que nascem com corpos de deuses gregos pois deles serão os reinos dessa terra. Peitos e bundas abundam nas capas de revistas, programas de televisão e internet. Há muito se sabe que beleza vende, dá audiência e lucro, muito lucro. É consenso: parecer e ter interessam muito mais do que ser.


Mas chega de Narcisos míopes! As pessoas, com seus penteados e topetes armados em cabeças ocas, ao se olharem no espelho simplesmente não se exergam, ou melhor, só veem o que querem ver. É muito difícil e às vezes até assustador olhar para si mesmo através do límpido espelho da verdade - sem colírios alucinógenos, drogas que alteram a consciência, truques de luz, câmeras, maquiagens e photoshop. E o que vemos por fora é só a fachada da muito mais horrenda podridão interior, do monstruoso egoísmo que se esconde por dentro. As cirurgias plásticas podem até remover a feiura exterior, quando bem feitas, mas o monstro do ego inflamado permanece incubado e horrível devorando a alma.


Sim, precisamos de espelhos, espalhemos espelhos por todos as partes! Chega de câmeras, ninguém precisa aparecer ou ser visto - precisamos aprender a nos enxergar. Façamos do céu um enorme e gigantesco espelho para que a humanidade olhe francamente para si mesma. Olhe e pense, pondere, reflita. Olhar para si mesmo sem refletir sobre quem é e o que faz, sem tentar se conhecer, é serviço nulo. E conhecer a si mesmo é tarefa contínua para uma vida toda e, se você acredita em reencarnação, para muitas vidas. De acordo com a doutrina budista a reencarnação de fato existe e a ideia faz até sentido - viver uma única vida não é suficiente para aprendermos tudo o que temos a aprender. Pensar que a nossa alma vai se aperfeiçoando pouco a pouco, de vida em vida, demonstra humildade e modéstia. Quão árdua e longa é a tarefa de enxergamos verdadeiramente a nossa feiura!


Mas calma, nem tudo são rosas pútridas e feiura. É possível sim, no meio desse fétido pântano, encontrarmos uma cândida flor-de-lótus com beleza infinita. Sim, é difícil, mas não impossível. Se desligarmos a televisão e fecharmos os nossos olhos sem nos preocuparmos em aparecer ou olhar para fora mas, pelo contrário, olhar para dentro, poderíamos vislumbrar muita beleza, muito mais do que imaginamos. Fechar os olhos e olhar para dentro com os olhos da alma. O que realmente importa nessa vida, o que é verdadeiramente essencial, nós não podemos ver, ouvir ou tocar - não está do lado de fora mas, dentro de nós. O amor, por exemplo, é algo que não tem cor, cheiro ou peso. A compreensão, compaixão, tolerância e fraternidade estão todos nessa mesma categoria, estão dentro de nós e não podemos ver, pelo menos não com os olhos da carne.


Proponho um pequeno exercício. Vá para a frente de um espelho, pare, olhe e pense. Reflita. Você é uma bela flor-de-lótus em meio a um pântano ou um Narciso míope e paranóico? Fica horas e horas em frente ao espelho admirando uma beleza exterior e interior inexistentes ou tenta enxergar além do reflexo do espelho, com auto-crítica, sinceridade e humildade? Pare, olhe e pense. Profundamente. E ao pensar, não se esqueça de levar o indicador e polegar ao queixo, franzir a testa, comprimir levemente os lábios e mostrar um certo olhar compenetrado. Faça pose de “o pensador” de Rodin. Lembre-se: tem sempre alguém olhando, você pode estar sendo filmado.


Agosto de 2010

Fonte da imagem
Francis Toyama
Enviado por Francis Toyama em 28/09/2010
Código do texto: T2526669

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Sobre o autor
Francis Toyama
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
74 textos (44157 leituras)
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Francis Toyama



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