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A última noite de João Miúdo

João Miúdo era gente boa, espírito infantil, inocente no trato com as coisas e com amigos, trabalhador como todo trabalhador é. “Tapado” não era. Com seu emprego no Banco Mercantil de descontos, que ele dizia “Merdesco S/A” conseguia, com sacrifício e perdendo aula por conta de atraso da compensação na agência, fazer seu terceiro ano de Contabilidade, na São Lucas.

Não tinha vida muito boa, mas, não percebia porque sempre vivera assim e assim era feliz, do seu modo. João era Miúdo só no nome, mulato de grande estatura e peso, tinha dificuldade em se acomodar na carteira da escola, no espaço do caixa da agência, na própria cama de casa.

Difícil também era ter namorada, posto que carecesse de atrativos, normais na rapaziada de seu grupo.

Amava a sexta-feira, após a aula saia com Pedro e Jonas na caçada por aventuras no centro da cidade. Eram os três viciados em damas da noite, únicas que aceitavam João Miúdo como era, por um pequeno agrado tornavam-no o príncipe dos sussurros e delícias, mas, no trato com  prováveis namoradas o mulato era um fracasso.

Sua mãe se preocupava muito e não aprovava a amizade com Jonas e Pedro, tinha razão. A simplicidade de João Miúdo e sua pureza de espírito serviam de diversão para os amigos.

João desenvolveu o interesse pela bebida que passou a substituir sua dificuldade de relacionamento com o sexo oposto.Desta forma, toda volta da “Balada” era um tormento aos companheiros que tinham de transportar o mastodonte bêbado até sua casa.

Miúdo era diferente mesmo, atraia só aproveitadores pela sua exótica aparência e seu jeito de bobo. Pensava fazer amizades com facilidade, mas, na verdade, não passava de uma aberração circense, que os pastores da noite gostavam de assistir e de provocar.

Então, teve uma noite de sexta que João Miúdo se meteu numa cilada armada pelo destino, ao tentar mostrar resistência a um “Vira-vira” de cachaça num barzinho da zona da Luz. Extrapolou todos os limites e travou completamente.

Pedro e Jonas estavam entretidos com duas meninas que prometiam boa reinação e deixaram que João ficasse como um molambo na calçada. Fazia muito frio e garoa fina caia.

João viajava no excesso de álcool que consumira, e dormindo falava consigo mesmo, numa espécie de demência que o acometia. Depois silenciou e parecia ter pesadamente dormido.

Na segunda-feira, não foi à consulta marcada no cardiologista, nem pode pedir perdão à sua mãe pela noitada errada, mais uma de tantas que já fizera. Seu coração não transava bem a idéia de gordura e cachaça demais. Ele não transava bem a idéia de estar sempre sozinho, não mesmo. Queria ter a parte que lhe pertencia, procurava por ela, mas era conduzido aos subterrâneos por confiar em excesso no faro de Jonas e Pedro.

Seu caixa no “Merdesco” ficou vazio na segunda feira, nem foi à aula, perdeu prova. Foi esquecido na rua pelos amigos, aos quais devotava confiança.

Domingo à tarde, sua mãe voltou de dura missão para casa, chorava baixinho e em suas mãos o laudo médico, a conta da prefeitura pelas despesas.
 
A chuva fina molhava a terra fofa e as flores sobre a nova campa do “Chora Menino”.

Entre um copo e outro Jonas e Pedro comentavam o triste fim do amigo bancário. Não foram à vigília das almas porque morto é que chora morto. João não sabia com quem andava, não pode saber quem era...


Paulo de Tarso
Enviado por Paulo de Tarso em 30/09/2006
Reeditado em 15/03/2008
Código do texto: T252997
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Sobre o autor
Paulo de Tarso
São Paulo - São Paulo - Brasil, 60 anos
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Paulo de Tarso