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O SABIÁ E OS CISCOS



Esta crônica abordará simplesmente um canto de sabiá. Estou avisando desde o início. Assim você não perde tempo. Pode passar logo ao resumo das novelas, às notícias de futebol, ou aos babados do findi. O primeiro para as mulheres, o segundo para os homens, o terceiro para os biléxicos. Todos avisados. Esta crônica é sobre um canto de sabiá.

Nesta altura, chame alguém num raio de dez passos, a quem dedicas amor ou afeto. Leia a crônica para ele ou para ela. Como amor e afeto não têm objeto determinado, pode chamar o cachorrinho ou o iguana. Apenas é necessário que a coisa ou a criatura seja capaz de convencer-lhe a assistir um show do Amado Batista ou a levantar-se às cinco da manhã pra acampar na Barragem de Ernestina. Algo de pelúcia ou silicone também vale.

Aqui você está abrigado da política. Nada de surpresas sobre o avanço feminino com a viração da Ieda no aqui no RS ou a lívida volta do Olívio. Não psicoanalisarei os medos de Lula. Sabe-se das mulheres invadindo os palácios e assembléias, em boa hora. Elas, graças às calcinhas, de tecidos frágeis e quase transparentes, não ocultarão dinheiro nas partes. Além disso, como aprendi num folheto do ginecologista, seu órgão é mais exposto que o nosso e, portanto, mais propenso à infecção. Assim, mulheres – inteligentes e cuidadosas - jamais colocariam notas sujas em local tão delicado. Se Affonso Romano tiver razão, ou seja, que as mulheres tem uma capacidade estranha de tratar a tudo como a um filho, estamos bem. Que elas governem com seu afeto e carinho.

A tragédia com o vôo 1907 quero longe deste texto. Coisas espinhentas demais para uma crônica, dores demais para um sabiá. Tantas famílias entristecidas, velando seus mortos, tentando entender o incompreensível, aceitando a “vontade de Deus”. E Deus lá encima, além do caminho dos aviões, tentando entender a gente.  Muito destrambelhados esses meus filhos, muito destrambelhados!

Mas já que eu estou terminando a crônica sem falar do sabiá, vamos ao assunto. O sabiá é um sujeitinho pássaro que há mais de uma semana assovia num pé de cerejeira. Tem um canto interessante, diferente. Entoa uma estrofe, faz uma pausa de colcheia, depois solfeja o arremate. Por culpa da primavera, o sabiá anda desesperado. Vai das cinco da manhã ao escurecer. Comecei achando bonito, agora enjoei com tanta insistência.

Googlei sobre sabiás. Sabiás cantam para atrair uma fêmea nestes tempos de primavera. Quando a fulana aparecer, deixará de cantar. Impossível assobiar e juntar com o bico ciscos para o ninho, ou, mais tarde, levar minhoca para os filhos... O sabiá, como a gente, insiste dia após dia, e não se deixa abater porque se move pelo amor. Entre boas e más notícias, entre novelas e jogos de futebol, vamos assoviando os dias.  Eleições e tragédias são coisas esporádicas. A vida se sustenta de firulas e de amor, em múltiplas espécies. Tudo é motivo para assovio, tudo é cisco.

***
Prêmio Mário Quintana – Dia 19/10/06, às 19h30min, em recital poético na Casa de Cultura do poeta em Porto Alegre, descobrirei se sou primeiro, segundo, ou terceiro colocado no II Concurso Nacional de Literatura Mário Quintana.  Por enquanto estou entre os três indicados em crônica neste ano do centenário de seu nascimento.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 02/10/2006
Código do texto: T254678
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5113 leituras)
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