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A FLOR DE GUERNICA

I:
                                    “Francisca de Souza Oliveira, 18, moradora de Novo Progresso (MT), deu à luz um menino no sábado (7) com o apoio dos médicos da FAB (Força Aérea Brasileira) que trabalham no resgate das 154 pessoas mortas na queda do vôo 1907 da Gol. Ela entrou em trabalho de parto durante o vôo que a levava a um hospital de Cuiabá, onde ela seria submetida a uma cesariana. O bebê nasceu saudável e recebeu o nome de Fabiano, em homenagem à corporação.
                                Oliveira começou a sentir contrações nas proximidades da base da FAB instalada na serra do Cachimbo. Diante da emergência, os médicos da unidade avaliaram a gestante e concluíram que ela precisava ser submetida a uma cesariana e que, para isso, seria preciso levá-la a um hospital de Cuiabá. Um avião da própria corporação foi destacado para o transporte.  O vôo duraria uma hora e meia. Porém, ainda durante o percurso, Oliveira -que tem mais dois filhos- entrou em trabalho de parto. O menino nasceu com 4,7 kg e 52 centímetros. Mãe e filho passam bem. Eles foram levados para o Hospital Geral de Cuiabá. (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u126844.shtml)”
II:
                          Por culpa de minha ignorância, um dia travei discussão com um amigo sobre a mais conhecida obra de Picasso, Guernica. As fotografias do bombardeamento de Guernica, que aparecem na imprensa em Maio de 1937, tocam o pintor profundamente. Passado pouco mais de um mês, e após 45 estudos preliminares, sai do seu atelier parisiense o painel Guernica. No mesmo ano, será colocado na entrada do pavilhão espanhol da Exposição de Paris dedicada ao progresso e à paz. Rapidamente se transforma num objeto de protesto e denúncia contra a violência, a guerra e as tragédias humanas.
                               Sempre achei o quadro terrível. É clara a mutilação dos corpos. Um homem grita apavorado com os braços erguidos. Um cavalo agoniza. Uma mãe com um filho  morto nos braços procura a porta. Um touro que abana o rabo tranca a porta. A mãe tem um rosto de dor aterrorizante. Condensa em seu grito todas as mães do mundo, em todas as perdas do mundo.
                             Para meu amigo Guernica tinha esperança. Para mim, era só desespero. Além das figuras mutiladas, as cores cinza e preto, sinistras. Você observa mal, me lascou na cara.
                                Há uma flor, me disse. É uma flor em preto e cinza, mas é flor. E essa flor, pequena, quase invisível, é a resposta. Observe melhor. Na parte inferior da pintura há um homem caído. Sua espada está quebrada, de sua não nasce uma flor. A flor está crescendo, cresce sobreposta às figuras. Ela será maior que as figuras porque está sobre elas.
                                  Chegando em casa, fui para a internet, salvei a Guernica no PC, olhei com zoom. Verdade. Há mesmo uma flor imperceptível nascendo de uma mão com a espada rompida.
III:
                                            Fabiano é a flor da Guernica entre destroços. A flor da Guernica amazônica. O mundo é um quadro cheio de metáforas. A névoa da ignorância cobre tudo com um vestido opaco.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 08/10/2006
Reeditado em 09/10/2006
Código do texto: T259754
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5113 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 05:25)