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Duelo de bonitinhas

        Mas mesmo assim insistira, “pela tabuinha não entra água, é garantido, agora vá dormir”, mas a pluviosidade se persistia de forma tão intrépida que hesitava da mãe e resolvera pela ultima vez pedir que a deixa-se enclausurar, percebendo nos ajustados tremeliques soltos naquela pele encardida e angolistada, pensava se mesmo seria uma vez, naquela vida tão teimosa saber se dentro daquela pele toda que sua mãe era encobertada selvagemente, sabe-la a essência imoral, fantástica, alucinógena, saber que a cada dia mais a dentro todo aquele humor se mudaria por perto, se definharia no regaço mais de grito e promete-la quando ser aquela mocinha mulher enfeitada de barbante e de pó, dar a remissão.
        Rachado aquele mausoléu por debaixo de um azul turquesa fino, desgraçado por placas tectônicas e perpétua-roxa, tremendo no céu como dois meninos fumando charuto na beira do rio estéril chorando de uma descoberta tão diabólica e concupiscente que parecia tornar o mundo algo cada vez mais titubeante e gratuito. Ambos os meninos avassalados de fumaça escura deram-se às mãos enquanto chegava a ultima deságua, “posso soltar essa fumaça que vou chupar agora na sua cara?”, longo silêncio atropelado, “pode, eu deixo”, beijaram-se obliquamente enquanto seus pés se molhavam da água crescente no talude, “a gente vai morrer afogado, amigo?”, longo segredo pacífico, natural e persuasivo, “ você não sabe o que é vencer na vida, porque você só venceu...”, a água já inundando seus pés alertava uma emergência laboriosa de vastidão, como se aquele parco beijo se alastrasse monstruosamente molhando de saliva graúda o mundo inteiro e jurando também ao mundo sua indignação para com ele, “eu não, eu que jamais venci, simplesmente sei o que é vencer”, “e então, a gente morre?”, “a gente não, ninguém é a gente mais no mundo, são todos Os outros, aqueles, lá...”.
        A menina fizera dezenas de tranças mal feitas nos cachos inaceitáveis durante a tempestade, sua mãe, plácida fizera um café amargo e dolorido numa chaleira porca, “deixa, eu te ajudo com essas tranças”. E pronto, parou de chover.
Junior Monteiro
Enviado por Junior Monteiro em 10/10/2006
Código do texto: T261313
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Sobre o autor
Junior Monteiro
Umuarama - Paraná - Brasil
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Junior Monteiro