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Ainda na cama

Ah! essas manhãs de outono... Ligeiramente frias, Sol intenso, verde reluzindo, brisa balançando galhos das trepadeiras preciosas que exibem viço especial através de mudas herdadas da mãe, da avó, da sogra e do sogro, da mãe da nora. Percebe, cada um colaborou – em tempos diferentes - com colorido especial para que esta particular manhã fosse configurada.

... E aí o pensamento, que parece mesmo uma coisa à toa, voa e se lembra. Lembra, por exemplo, da secretária da escola primária onde começou a trabalhar como gente grande, que ligou dias atrás solicitando sua presença para ler as crônicas que publica nos jornais: ela ficou cega, mas adoro que leiam para ela. Prometer, prometeu mas ainda não cumpriu.

Lembra de John Done, o poeta. Nenhum homem é uma ilha isolada, que fazemos parte de um continente, de uma imensa irmandadade, que estamos conectados uns aos outros, que todos juntos formamos uma única teia, que não se justifica perguntar por quem os sinos dobram: eles dobram por nós.

Lembra do aniversário de quatro anos da neta mais velha, transcorrido há pouco e da emoção de participar ativamente da festa ao “desaprisionar” (que não é a mesma coisa que libertar) sua própria criança enclausurada pelas convenções e adequações sociais, subir na árvore, assoviar com os dedos na boca e, pela mesma boca, arremessar feito torpedo as sementes de laranja.

Lembra dos bailes onde ia para dançar na mocidade, tão diferentes dos realizados hoje! Sentiu muito prazer na oportunidade de revivê-los na última semana e teve coragem de enfrentar a comparação do que foi com o que é, do como estamos com o que fomos... Percebeu a importância de cada momento e cada acontecimento nos resultados estampados e visíveis em cada rosto, expressão, nas marcas do tempo.

Nessa manhã particularmente, nessa manhã friazinha e romântica, ainda na cama, compromete-se a ir pessoalmente ler essas palavras (que ainda nem foram escritas, só foram pensadas) para a ex-secretária daquele grupo escolar. Sabe-se parte do continente humano. Percebe-se livre desde quando libertou sua criança interior. Gosta-se porque está aprendendo a se perdoar e louvar todo acontecimento do seu cotidiano. Sente-se feliz: está aprendendo a bordar segundo seu próprio desenho, escolhendo – por sua conta e risco – as cores a serem usadas.
Lúcia Helena
Enviado por Lúcia Helena em 14/10/2006
Código do texto: T264433
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Sobre a autora
Lúcia Helena
Franca - São Paulo - Brasil, 72 anos
15 textos (824 leituras)
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Lúcia Helena