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Avó arteira

Familiares riram-se um bocado de mim. Durante a semana passada participei de um evento na qualidade de expositora. Fui para lá com minhas bolsas, minhas blusas bordadas, minhas caixas cobertas e enfeitadas, artefatos feitos por mim. E chamei a grife de Arte de Avó. Afinal, uma avó que se preze obrigatoriamente deve saber manejar uma agulha, cola, papel, tecido, deve saber enfeitar uma caixa. Bem ou mal, não importa, mas ela deve cumprir seu papel de avó.

Por falar em avó, a netinha de quatro anos estava na casa da bisa, minha mãe, quando cheguei. Percebi que as duas estavam falando mal de mim. Elas conversavam sobre minha ilustre pessoa, e Luísa, a neta, dedava que eu tinha lhe ensinado “porcarias” e que por isso devia ficar de castigo. Por ordem de denúncia: que eu tinha ensinado espalhar cola branca nas mãos, secar e depois tirar as lasquinhas. Que eu falava palavrão quando perdia a paciência. Que eu ensinei a enrolar a língua ao contrário e arremessar semente de laranja (ou de uva, ou de mexerica, ou de jabuticaba) longe - o que a avó do outro lado achara “um horror”, com razão: ela foi educada em colégio de freiras e eu freqüentei uma turma da periferia na mesma época. Fiquei de castigo, sentada na poltrona por quinze minutos, com a orientação dada pela neta, de ficar quieta, sem conversar, “pensando nas coisas feias” que praticara. Sábado, alguns dias depois do castigo, fui passear com ela no shopping. Coisa de avó, igualmente. Ela me olhou de forma analisadora e disse: “Vó, você é engraçada, né? Não é nem velhinha, nem mocinha.”Achei graça, até que ela completou: “Mas você é mais velhinha que mocinha”.

Tá vendo? Já saio contando gracinha de neta. Estou mais para velhinha que para mocinha, portanto já estou na fase de ser avó. Tenho idade suficiente para sê-lo. Não sei porque se assustam quando assumo a “avozice”. A única coisa que não gosto, em se tratando de desempenho deste direito, é contar a história do Chapeuzinho Vermelho. Fico tiririca quando chega a hora quando matam o lobo mau, só porque comeu a vovozinha. Vê lá se isso é motivo de acabar com um lobo de tanto bom gosto!
Lúcia Helena
Enviado por Lúcia Helena em 14/10/2006
Código do texto: T264440
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Sobre a autora
Lúcia Helena
Franca - São Paulo - Brasil, 72 anos
15 textos (824 leituras)
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Lúcia Helena