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Roda gigante

A luz fina da lua refletia-se no olhar singelo de Clara, cinco anos, cabelos finos e loiros atiçados ao vento numa noite de natal indócil. Uma mão pequena e macia protegia-se na aspereza de uma mão calejada. Silêncio. A roda gigante não parava de rodar e os olhos de Clara, fascinados com todas as cores e luzes acompanhavam todo o movimento harmonioso e suave.
A menina fez impulso para frente, buscando alcançar de repente, imediatamente, as cadeiras que rodavam e já se sentia sentada numa delas. Entretanto, a mão firme, grossa, com dedos grandes a manteve no mesmo lugar, agora parada, sem saída. Clara ouvia risos que vinham de longe de outras crianças, confundiam-se com as músicas, com o assoviar do vento, com as vozes embaralhadas dos adultos, com o latido do cão da praça. De um lado, bexigas com cara de desenhos animados, do outro, algodão doce azul e amarelo. A lua continuava a beijar os olhos da menina e o vento a girar as crianças sorridentes da roda gigante. Pés sujos pequeninos em sandálias de dedo velhas. Os olhos de Clara eram claros e redondos com pálpebras que não piscavam e lá dentro via-se cada cadeira colorida girando, girando... girando... brilhando à luz da lua, misturando-se ao brilho natural de seus olhos. As estrelas também piscavam, mas do outro lado uma nuvem cinzenta e densa aproximava-se da lua. Aquela noite não seria de Clara. Enquanto outras crianças comiam suas maçãs do amor e divertiam-se nos brinquedos, ela abraçava a roda gigante com o desejo. A nuvem cinzenta, então, roubou toda a claridade, encobrindo a lua e deixando os olhos da menina agora apagados. As pálpebras renderam-se ao chão. Um choro de criança pequena do outro lado, o latido interminável do cachorro da praça, a buzina irritante do pipoqueiro, o vento cortado pelo tiro seco do homem que tentava derrubar o maço de cigarros. O céu ficou escuro, a roda gigante não rodava mais. Sentado num banco sozinho, um velho com cara enrugada, calça social e chinelos, fumava um cigarro de palha e abria um sorriso para a menina. Aquele sorriso banguelo que apertava os olhos parecia traduzir memórias saudosas que se misturavam aos bafos de cigarro e se perdiam no espaço. Fumaça de cigarro, nuvem cinzenta, sorriso banguelo.
Clara, agora, caminhava lentamente de volta pra casa apertando a mão embrutecida que a segurava e deixava pra trás todas as cores apagadas. Estas, no entanto, voltariam a reluzir mais tarde em sonhos que ela construiria.
Em casa, um bolso vazio de uma calça velha jogava-se sobre a cadeira do cômodo-casa, um café amargo aquecia a garganta do homem e Clara no quarto, deitada sob lençóis finos, com olhos apontados para as estrelas de sua janela, andava de roda gigante.
Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 14/10/2006
Código do texto: T264613
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
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