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CADÊ O SOL, VANESSA?

- Cadê o sol, Vanessa?
Ele gostava de ficar fazendo perguntas soltas e sem muito sentido durante o dia. Talvez porque ela fosse meio do contra (sempre!) e ele, por falta de assunto, gostava de implicar. Ela não gostava de implicar. Ela adorava! Qualquer coisa que fosse dita, sempre tinha um NÃO como comentário ou resposta.
- Tudo bem contigo?
- NÃO sei... Acho que peguei uma alergia...
Alguma coisa sempre estava errada e ele não conseguia aceitar tantos sentimentos negativos em uma menina. Sim, uma menina! 21 anos, pelo amor de Deus! Como poderia se parecer tanto com o estereótipo da velha rabugenta? Ele até entendia ou achava que entendia o porquê. Talvez fosse o marido dela. Talvez fosse o fato de ela ter se casado com dezenove anos, depois de um namoro de dois. Talvez fosse a situação financeira. Talvez fosse a criação...
- Alguma entrevista de emprego depois do expediente? Arrumada e elegante desse jeito, deve ter compromisso depois do trabalho.
Ele gostava também de se sentir generoso e meio herói fazendo esses comentários "super engraçados" que sempre deixavam ela um pouco mais acessível e sorridente. Não que ela não sorrisse durante o dia. Sorria. Mas era um sorriso meio falso. Inconscientemente falso. Meio vazio. Sem muita convicção. Meio triste até. Algumas vezes flagrava os olhos dela cheios de lágrimas. Não comentava nada. Ele, na realidade, não queria se envolver. Ela sabia que, se precisasse, ele estaria ali. Pelo menos, era o que ele achava.
- Tem aula hoje?
- Tenho. Mas NÃO tenho a menor vontade de ir...
Ele via nela uma certa arrogância também. Por isso evitava ao máximo começar ou manter longas conversas. Comentários curtos para mostrar boa educação e cordialidade era tudo o que ela teria dele. Na realidade, ele estava cansado de tentar ajudar, fosse qual fosse o problema dela. No começo da amizade até tentou dar conselhos, mas logo ele sentiu que ela não levava muito a sério o que ele dizia. Talvez fosse a criação... Ou apenas conselhos ruins.
- O sistema tá lento hoje, hein?
- Nem me fala. NÃO consegui fazer quase nada... E você, hein? Pelo jeito, NÃO tem nada prá fazer...
Ele também não gostava muito desses comentários. Afinal, ele se matava de tanto trabalhar, mas de vez em quando, parava e ficava meio que "divagando". Justamente nesses momentos, ela gostava de alfinetar. Ele se sentia vigiado por ela. Parecia que ela estava sempre a postos para "pegar" qualquer erro ou ato de "preguiça" que ele pudesse cometer. Pura implicância.
Era uma relação de cordialidade meio tensa disfarçada com cumprimentos e comentários leves. Era o que ambos tinham. Colegas de trabalho nem sempre são amigos. Decidiu pensar que ela fazia parte da rotina. Então, nada mais profundo do que tentar saber dela como seria o tempo. Nada mais além disso.
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 21/06/2005
Código do texto: T26509

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Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
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Rafael Zanette