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Mística

Sonhei essa noite com meu avô. Abracei-o com necessidade dos seus braços, no desespero dessa saudade que me corrói. Trazia ele um olhar suave e meigo. Seu corpo exibia uma saúde que eu não conheci e um sorriso grave, como grave sempre foi. Eu lhe perguntei dos últimos momentos, se havia doído tanto quanto eu presumia... Ele olhou-me nos olhos e me disse que isso já havia passado e que ele havia deixado essa dor e não entendia porque eu a trazia ainda comigo. Depois, tomando-me a mão, disse-me: Venha! Vamos comigo visitar nossa família... E num instante, misteriosamente estávamos na velha casa da Avenida João Pinheiro, que fora demolida há 24 anos atrás. Estávamos ali, meu avô e eu. Havia ruídos pela casa. Ouvi as vozes que se silenciaram faz tanto tempo... Entramos no grande quarto do meu avô e um cheiro delicioso de ervas entrou nas minhas narinas... Era o cheiro dos lençóis guardados em meio aos saquinhos de alfazema e patchouli, cuidadosamente preparados pela minha avó... Eu chorei ao rever coisas que há muito tempo haviam adormecido na minha memória... O antiquíssimo abajur de tecido vermelho que tantas vezes me fascinou nas noites escuras de medo e frio, o despertador Krone que fazia sons de carrilhões, a penteadeira em jacarandá cheia de vidrinhos de perfume, talco e bibelôs. Meu avô apenas tudo observava com indescritível ternura. Tomou-me a mão e percorremos ainda a sala. Sala irregular. Poligonal. Nas paredes estavam as andorinhas de louça azul, um quadro luminado de São Jorge, pequenos bibelos e um quadro com borboletas azuis e amarelas. No canto o mesmo sofá marrom, onde eu muita vez dormi com medo do escuro... Passamos pela cozinha: As panelas de minha avó permaneciam no velho paneleiro de ferro. Sobre a mesa haviam ainda a garrafa de café e os inúmeros bules de chá, cujo cheiro trouxe-me um látego de saudade e angustia... Chá de funcho, chá de canela, chá de menta, chá de mate, chá de erva cidreira e chá de tudo isso junto...
Meu avô não se deteve... continuou caminhando. Havia rumores na casa, mas não viamos ninguém. Busquei meu avô que neste momento estava parado próximo ao tanque de lavar roupa, olhando o quintal... Minhas lágrimas oprimidas cairam vigorosamente dos meus olhos, provindas do mais escondido refolho de minha alma quando vi os dois pés de cerejas e lá no alto deles, brincávamos eu e minha prima Luciana. Éramos tão crianças! Cantávamos cantigas muito antigas, canções que o tempo emudeceu dos nossos lábios... Olhei para meu avô como se quisesse perguntar-lhe como era possível isso? Como poderia eu estar ali com ele e estar lá, brincando de ser feliz? E meu pranto ficou convulsivo. Então, meu avô me abraçou e disse:
- Meu filho, páre com isso. Você somente deve me ajudar a visitar nossa familia. Me acompanhe apenas, porque essa visita e minha, não sua... Calei, suspendi o choro e obedeci-lhe como sempre. Mas eu agora sei que os pés de hibiscus cheios de beija-flores e roseiras em profusão, de minha avó, permanecem ainda em algum lugar do tempo e do espaço...
Entramos na porta lateral do quintal, que ligava a casa do meu avô a padaria. Os rumores cresceram... Vi então os padeiros que nunca conheci... Baltazar, Ângelo, Waldezon, José Norberto... Senti o calor da fornalha e reli na tampa dela o nome Record. Ao chegar no salão da padaria, revi meus tios e meu pai... Tão jovens! Tão lindos!... Tio Natal, Tio Roberto, papai... Falavam coisas feias, palavreado de moços cheios de hormônios e sem peias na língua. Olhei para meu avô, cujos olhos traduziram uma vontade louca de talvez reter para sempre em suas retinas aquele momento de espontânea fraternidade dos seus rebentos. Odores de baunilha, cravo, canela, ovos, farinha de trigo enchiam o ambiente. Olhei para trás e pude ver ainda o velho depósito de lenha cheio de paus, troncos e galinhas (providencia natural contra escorpiões). Ficamos ali mais tempo que nos outros lugares. Meu avô queria ver tudo: As máquinas, o forno, a limpeza do banheiro... E não disse uma única palavra. Então, ele me pediu para que eu abrisse a porta de correr, que separava o salão da padaria do balcão de atendimento. Fiz isso com dificuldade, porque aquela porta sempre foi emperrada. Descemos os três degraus que separam um nível do outro. Novamente, ainda que muito lutasse, eu não consegui suprimir o pranto! Ví minha avó, imensamente linda, conversando com minha tia Elizabete que estava no caixa da padaria. Ambas estavam lindas, maravilhosamente alvas e minha avó estava muito jovem! Talvez Vinte e poucos anos... Quase que a mesma idade da filha. Se eu não as conhecesse, poderia imaginar que fossem irmãs. Meu avô as contemplou e nesse momento vi pela primeira vez as lágrimas sofrerem nos seus olhos verdolengos. Ele abraçou a minha avó e ficou abraçado a ela por alguns minutos, chorando manso, devagarinho... Beijou ternamente sua testa e suavemente seus lábios. Disse-lhe algo no ouvido. Novamente a beijou com indescritível ternura depois, voltou-se para minha tia Elizabete e a beijou também. Aproximei-me de minha avó e beijei-lhe a face branca e macia.Senti seu cheiro de talco e contouré. Minha tia Elizabete sorria com alegria, embora parecia que nenhuma delas nos via... Meu avô deu um suspiro, estendeu-me a mão e disse-me: -Deus te abençoe. Eu lhe agarrei pelas cintura e pedi para que não fosse embora. Pedi para levar-me consigo. Disse-lhe que não nasci para esse mundo, que sou inabilitado para permanecer mais tempo neste deserto. Ele olhou-me com muita gravidade e disse:
- Basta! Se não fosseis habilitado para estar aqui, não estarias.
Compreendi que não deveria insistir com minha vontade de não abandoná-lo e nunca mais ser abandonado.
Eu lhe beijei a fronte rejuvenecida e perguntei ainda mais uma vez sobre a dor. Ele me disse que ela doeu, como sói doer a dor. Mas que o que mais lhe doía ainda era rever o meu desespero naquela sala de emergência, tentando reanimá-lo e não me conformando com o inevitável. Disse-me que sempre que penso naquela dor -que não era minha, ele a sente reavivar... Pediu-me para esquecer. Pediu-me para viver. Aconselhou-me. Disse que me ama da maneira como sou e me compreende. Agradeceu-me o último beijo naquele leito sinistro de morte e a prece solitária num banco de jardim. Disse que eu deveria amar meus tios e primos e irmãos com a maior intensidade que me fosse possível e sempre lembrá-los do quanto eles foram, são e serão amados por ele também! Pediu-me ainda mais uma vez para esquecer a dor e partiu devagarinho... Acordei com um gosto de pranto na saliva e um quê de saudade no coração. Mas era como se todo o quarto estivesse velado por um grande véu de conforto e esperança.

Ao meu avô, Messias Carlos de Paiva.

Marcos Aurelio Paiva
Enviado por Marcos Aurelio Paiva em 16/10/2006
Código do texto: T265542
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Sobre o autor
Marcos Aurelio Paiva
Reino Unido, 43 anos
32 textos (1952 leituras)
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Marcos Aurelio Paiva