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De Silêncio e Reflexão

De silêncio e reflexão

Maria Lindgren

Na desorganizada e barulhenta cidade em que vivo, penso que somente o sono muito profundo, sem sonhos perturbadores, ou a morte, esta benemérita do silêncio absoluto, têm o poder de nos prover quietude. Em casa, na rua, dentro dos templos, barulho por todo lado.
É verdade que, milagre, consigo refletir em pé, nos degraus de uma escada, em meio à espalhafatosa chuva a se despejar, como em rancor ou vingança de agressão desconhecida, à saída da missa dominical. A chuvarada abafa ruídos, confusão de vozes e carros. Torna-me tão propícia à reflexão quanto o silêncio, apregoado pelos debatedores que vi na TV: psis, filósofos e antropólogos, apologistas do estar-se consigo mesmo, para a percepção, a pulsão de desejos fortes e válidos. Eles ainda não perceberam que os roncares e rosnares das megalópoles viciam.
Durante a própria santa missa ou nos cultos evangélicos, cadê sossego?! Os sons incessantes das igrejas modernas, católicas ou evangélicas, nos levam a crer num Jesus Cristo deficiente auditivo. Nas evangélicas, o pastor urra palavras para os “irmãos”as perseguirem durante a vida. Na minha católica, nem na hora mais emocionante da elevação da hóstia e do cálice sagrados, interrompem-se os cânticos. Em português claro, de melodia e versos primários, repetitivos, fáceis de memorizar.
Os fiéis formam um único coro esfuziante. Até mesmo, batem palmas ritmadas como nos megashows. Inútil querer refletir, em contrição ensimesmada, sobre pecados arrependidos ou desejos ansiados. A emissão das preces, qual rap religioso, ou o canto, em uníssono meio desafinado, nos entopem ouvidos e alma. Mal  se tem tempo de fechar a hóstia na boca, à hora da comunhão e lá vem a canção específica, acompanhada de violão ou teclado, atrapalhar a emoção e a concentração de ingerir o corpo de Deus.
Saudades da missa em latim de minha infância! Menos palavras compreensíveis, mais momentos de reclusão silenciosa, interrompida apenas pelo tilintar dos sininhos de ajoelhar ou o soar das matracas da Semana Santa. Naquela época, cantar era ofício de coro bem ensaiado. E, em geral, em casamento, cantores e cantoras selecionados, se bem me lembro; reza em conjunto e voz alta, repetição ondulante de altos e baixos, no terço ou na ladainha; Ave Maria, de Gounot e Schubert ou outros cantos litúrgicos, em latim... Que diferença! Ave Maria, gratia plena... Dominus vobiscum...Bem mais imponentes, eu acho.
Na porta da paróquia, meio protegida, respingada pelo aguaceiro ruidoso, enquanto meu filho  se atrasa para me pegar de carro, tenho bem uma meia hora  para pensar no que vi e no que não vi.
Igreja grande, repleta e alvoroçada. No único momento de barulheira legítima porque bela em sua solidariedade, o do Padre-Nosso, de inúmeros braços estendidos no dar as mãos em cadeia, choco-me: um rapaz de cara sisuda me rejeita. À hora da cumplicidade amorosa, após as palavras mágicas do padre “Eu vou deixo a minha paz”,  nos votos compartilhados de Paz de Cristo, economia flagrante de pessoas risonhas nos cumprimentos.
Trajes elegantes, calças e camisas impecáveis, sapatos de salto alto e belas bolsas homenageiam a ocasião festiva: verdadeira “roupa da missa”, em região praiana extremamente informal, inclusive nos teatros. Eu mesma capricho, para não destoar dos outros.
No balcão dos santinhos, venda de medalinhas, terços, imagens, em disputa barulhenta qual Bolsa de Valores. Na rua, gente que sai da igreja em exclamações e conversas típicas de bar, abrindo guarda-chuvas até os carros. Passantes abraçados, em proteção solidária, pelo medo de se molhar, gritam: - Ui,ui; vira mais pra esquerda, pai. Botequim fervente de foragidos palradores, dentro ou debaixo da marquise. E os habituais mendigos de porta de igreja, estes sim, silenciosas estátuas sentadas em banco tosco, defendem-se minimamente da água, plásticos improvisados à guisa de capuz. Mostram-se mudos, ostensivos, aos católicos dito caridosos. Em vão.
Fixo-me no rapaz sujo, andrajoso e encharcado: mexe e remexe o lixinho amarelo do poste, à cata de migalhas para lhe matar a fome e a pobreza extrema. E as duas senhoras idosas, mendicantes insistentes, remanescentes do grupo de umas seis, de todas as missas,  sem respeito à chuva a lhes inundar colo e pernas, deixam-se ficar, em constrangedor esmolar aos devotos da santa padroeira. Não conseguem um níquel sequer. Inclusive de mim. Talvez por dificuldade de se caçar nas bolsas, bolsos e carteiras as moedas ou notas de um real, enredados no abrir de guarda-chuvas e nos respingos d´água celeste. Ou talvez por princípio, na esperança de que os pedintes deixem as ruas e as pessoas do bairro, na sua santa paz de  mais endinheirados.
O carro chega, afinal. Interrompo meditações encharcadas. Grito ui, ui, eu também. Atravesso a rua, abrigo-me rápido da chuva.
 Esqueço tudo e vou cair de boca num belo cozido de domingo.
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Maria Lindgren
Enviado por Maria Lindgren em 21/06/2005
Código do texto: T26618
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Sobre a autora
Maria Lindgren
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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