Prego e o rádio

Passei a ser Gerente de Peças e tive a incumbência de visitar as filiais, residências e clientes no interior da Bahia.

Durante muitos roteiros, fiz parceria com Lauro Matta, experiente vendedor de máquinas e um tremendo gozador. Ele era residente em Vitória da Conquista. De lá, partíamos para o roteiro do Sul da Bahia até Teixeira de Freitas. Itabuna era a primeira parada para dormir.

Sempre nos hospedávamos no Lord. Havia um bar no térreo que era o ponto de encontro dos viajantes da região. Um hotel simples com uma particularidade nos apartamentos – um rádio de cabeceira da marca Semp.

Em toda viagem a gente se juntava ao residente da região de Itabuna, José Carlos, o Prego. Assim o chamavam porque era magro e a cabeça grande. A gente se reunia no apartamento que me hospedava. Prego viu o rádio e ficou pensando que era meu. Disse:

“Mas você leva esse rádio toda vez que viaja? – é pra ouvir jogo do Flamengo? É muito sacrifício”.

“O rádio é bom. Pega até a Rádio Globo antes das 5 da tarde. Já me acompanha desde rapaz”, respondi.

“Você quer vender? É pra meu irmão Deco, aquele lá de Teixeira de Freitas. Ele fica sozinho e o rádio seria uma boa companhia. Pago com cheque pré-datado”.

Lauro, mostrando desinteresse na conversa, disse:

“Olha San, lá em Conquista tem desses rádios, você compra outro. Deve custar um duzentos, piscando o olho para mim”.

“É San, Deco vai gostar, fica lá na filial sem ouvir nada. Nem televisão ele tem. Vou levar o rádio pra testar por alguns dias” disse Zé Carlos.

“É de pilha e de energia, ele vai gostar, Tá bom, Zé, pague 150 e a gente fecha o negócio. Faça dois cheques para os dias dos salários seguintes”

Terminada a reunião, Prego colocou o rádio sob o braço direito e empunhou a pasta 007 com a mão esquerda e me pediu para chamar o elevador. Lauro esperava por esse momento, pegou o telefone e ligou para a recepção:

“Olha, aquele cara que subiu vai levando o rádio do hotel. Pegue ele aí”.

A recepcionista meio embaraçada, falou: “Seu Zé, hei seu Zé”. Apontou o dedo para o rádio mas não disse nada. Continuou apontando e falou “Seu Zé, Seu Zé, oh ..........., oh ...........

“Ah! O rádio? Acabei de comprar na mão dos meninos! É pra Deco, meu irmão”

“Certo, seu Zé, só que o rádio pertence ao hotel”.

Desapontado, subiu e foi direto para o apartamento de Lauro. Só se acalmou quando viu outro rádio igual na cabeceira da cama. Ele compreendeu a brincadeira e descemos para o bar. Meia hora depois chegou com um rádio comprado na Avenida Cinqüentenário para o irmão.

Meses depois Deco faleceu. Zé Carlos fundou a Silmar, uma loja de peças para tratores em companhia de Josivaldo, o Rivelino. Não tive mais notícias deles.

Lauro, apesar de aposentado, não largou o trabalho – agora é funcionário do alto escalão de um órgão público e continua rodando pelo interior.

Luiz Sangiovanni
Enviado por Luiz Sangiovanni em 17/10/2006
Código do texto: T266975