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A mosca

13/10/2006- Perder a hora, tem seus inconvenientes, mas também seus méritos. Acordei em cima da hora, não fiz meu desjejum costumeiro, de frutas cuidadosamente picadas com iugurte e granola.Comi às pressas, um resto de rosca de porvilho, com schmia de figo e nata. Uma enorme mosca pousou no pote da nata, e isso me proporcionou uma viagem à infância.
Era costume no interior, criar porcos. Todas as famílias criavam pelo menos  um porco, para aproveitar as sobras de comida, cascas de verduras, etc. Durante meses, cuidava-se do animal. Além da “lavagem”, era alimentado com milho claro, que era plantado no fundo do quintal, entre alguns pés de aipim.
Quando o porco atingia o ponto de engorda desejado, avisava-se os vizinhos e familiares e marcava-se a data p a matança. Cedinho, logo ao amanhecer, ouvia-se o grito estridente do pobre animal, estendendo-se até que a vida nele  se extinguisse totalmente.
Eu costumava esconder a cabeça sob o travesseiro. Não suportava assistir à cena. Depois sim, ajudava a raspar o pelo. Havia todo um cerimonial. Latas e mais latas de água fervendo, eram vertidas sobre o animal,  estendido sobre uma das mesas q eram preparadas para o trabalho. Facas afiadas e um pouco de talento, por que não se podia cortar o corpo do animal.
A  pele e a gordura que nela se prendia, eram colocadas num enorme panelão, que ficava sobre um fogo de chão, em algum lugar do pátio, mais afastado, para evitar acidentes. Deixava-se ferver até a gordura separar totalmente e tornar a banha branquinha, limpinha. A pele, é o conhecido torresmo.
À medida que  o animal era carneado, tarefa que competia aos homens, os cortes de carne eram preparados pelas mulheres e separados, pois cada “assado”, seria dado às famílias que  auxiliavam no trabalho, que  geralmente, durava um dia inteiro. Era uma verdadeira confraternização entre familiares e vizinhos.
Uma das mulheres se encarregava da cozinha, pois era servido almoço a todos, claro preparado com  carne de porco.
A última tarefa era a fabricação das lingüiças. Havia a lingüiça mista, feita com a carne de porco misturada com carne bovina. A lingüiça feita com os miúdos, chamada de morcela, ou murcilha e havia também, para quem gostasse, a morcela de sangue. Para  isso, era recolhido o sangue do porco, enquanto ele agonizava e tinha-se que mexê-lo constantemente para  que  não talhasse. Nós não costumávamos fazer essa última.
Da bexiga do porco, era feita uma bola para as crianças. Era lavada, soprava-se ar dentro dela e era deixada a secar, curtindo até tornar-se um couro fino, mas bastante resistente.
As carnes ficavam diretamente sobre uma mesa, para facilitar o trabalho de seleção. Ficavam à descoberto, por serem manuseadas, o tempo todo.
Onde entra a tal mosca grandona? As carnes e tripas, que eram lavadas profusamente p fazermos as lingüiças, ficavam sobre uma mesa, geralmente destampadas. Invariavelmente, à certa altura alguém dava o grito impressionante: VAREJEIRA! A correria era intensa. Espana, bate, enxota, pega panos e cobre tudo. Depois, inspecionava-se tudo, cuidadosamente para verificar se não havia acontecido contaminação.
Minha viagem, não durou mais que 10 minutos. Impressionante.
O que a enorme  mosca encontrou de interessante  no pote de nata?

Vitoria Lerinha Haubert
Enviado por Vitoria Lerinha Haubert em 20/10/2006
Código do texto: T268963

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Sobre a autora
Vitoria Lerinha Haubert
Sapiranga - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
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Vitoria Lerinha Haubert