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Natal

Ah, o Natal!
De árvores que aqui não nascem!
E de neve. Que aqui não tem.
Natal. Dos pobres Papai Noéis de shopping, que morrem sufocados nos nossos verões, e em seus casacos vermelhos!
Vermelhos que, diz a lenda, já foram azuis; mas a Coca-cola, por alguma razão, resolveu adotar uma nova cor pro uniforme.
O Natal! Das musiquinhas vendendo celulares! Das musiquinhas vendendo móveis! Das musiquinhas liquidando roupas!
Jingles e mais jingles entupindo nossos ouvidos! Por que tudo parece cantar no Natal?
As festinhas de fechamento nas escolas infantis, de crianças que começam a chorar quando era pra dançar, a berrar quando era pra cantar, a correr quando era pra sentar.
Professores desesperados, pais tirando fotos.
Crianças... ah, as crianças! Nos comerciais elas se juntam ao redor da árvore, esperando pelo tão amado Santa Claus... Cantam uma canção, beijam os pais, e vão dormir. Na manhã seguinte os presentes estão lá, reluzentes: bolas, bonecas, bicicletas...
Na vida real elas cismam que não vão dormir até verem seus presentes, deitam no chão e gritam que querem o "Ultra Exterminator PX-559". O Papai Noel é obrigado a se adiantar um pouquinho. E então, elas vão dormir? Que nada. A madrugada inteira serão ouvidos os barulhos de tiros, gritos, monstros dos novos brinquedinhos. A pilha vai acabar pela manhã.
Os amigos-secretos: alguém sempre se dá mal.
O Natal dos vale-presente!
O Natal das cuecas, meias, gravatas e cintos!
E as caixinhas de Natal?
Do posto de gasolina! Repare na cara no frentista se você resolver não dar uma de bom samaritano.
Do prédio! A fofoqueira do 33 vai espalhar pra todo mundo que você não ajudou, o porteiro vai boicotar suas correspondências.
Aliás... que maravilha a convivência condômina no período Natalino! Enfeitar a varanda com luzinhas torna-se uma evidente disputa, na qual tudo é válido para alcançar a glória. No elevador, o assunto é que o "enfeite o 142 está estragando o prédio". Ah, claro. E que "é um absurdo o síndico gastar aquela fortuna com o Papai Noel do Hall de entrada".
Tem a disputa da ceia. Quem não repara o que sobrou mais ao final? O pudim da avó que desandou está lá, intocado. Em compensação, não sobrou um grãozinho da tradicional farofa da tia.
Ninguém queria, mas o pudim desandado vai ser repartido igualmente entre os presentes. E os potes da pobre anfitriã nunca mais serão devolvidos.
E dá-lhe louça pra lavar!
O Natal do emprego temporário, onde as coitadas vendedoras novatas se expremem, misturam-se, quase fundem-se com os clientes de última hora. Vão até o estoque e pegam a calça-igual-da-vitrine-só-que-azul-e-número-38. Triunfantes, entregam o produto à cliente (Viva! Comissão!). Ah, não... Acho que 38 não serve, obrigada.
O Natal, sempre Natal. Que por mais que quiséssemos esquecer; as Casas Bahia, a Vivo, a Marabraz, a Globo não deixariam!
Sim... Tantas ironias natalinas!
Mas, ainda assim, eu continuo me arrepiando ao ver a árvore na sala, piscando, tão ausente a isso tudo. Eu ainda amo receber um "Feliz Natal" sincero, e ainda acredito que devemos continuar renascendo nessa data. Sem religiosidades de minha parte. Apenas, para o ano que virá.
Alessandra Martins
Enviado por Alessandra Martins em 22/10/2006
Código do texto: T270376

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Sobre a autora
Alessandra Martins
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
64 textos (3724 leituras)
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Alessandra Martins