Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

VOCÊ RESPONDE ESSA...

- Morri há pouco. Ainda sinto o calor do meu corpo...
- Foi mesmo. Foi agora há pouco.
- Acho que quase ninguém sabe ainda. Além da minha esposa e do meu filho, que estavam comigo...
- O senhor teve muitos filhos?
- Dois. Um casal. A minha filha não chegou ainda, apesar de terem avisado que eu não estava muito bem. Sabe como é... Quando uma pessoa, um velho saudável como eu, não se sente muito bem e de repente prefere ficar na cama durante a tarde, algo não está muito certo. Ela deve chegar ainda hoje.
- Onde ela estava?
- Austrália. Estudando o oceano. Garota atrevida. Como a mãe. Gosta de aventuras, mesmo aquelas que aos olhos comuns parecem aventuras comuns. Viajando sempre. O planeta não tem fronteiras e nem barreiras para ela. Conhece todos os mares desse mundo.
- E o seu filho?
- Músico. Jazzista de primeira. Apaixonado desde criança. Ouvíamos juntos Miles Davis, Billy Cobham, Louis Armstrong... Sempre pude sentir a emoção dele em cada nota. Não me surpreendo dele ter seguido o caminho dos mestres.
- O senhor parece sereno... Bastante tranqüilo, apesar da mudança. Está se sentindo bem?
- E por que não estaria? A minha vida foi maravilhosa... Na minha infância, na minha adolescência, tudo correu bem. Nada de solavancos que pudessem me arrasar. Alguns traumas contornáveis. Outros nem tanto, mas que não prejudicaram a minha juventude. E foi aí que eu conheci a minha esposa. Ela é a razão de eu ter sido sempre tão apaixonado pela vida... Eu tinha vinte anos, ela dezoito. Começamos a namorar numa segunda-feira, dá para acreditar? E hoje... Que dia é hoje?
- Terça-feira.
- Terça-feira... Terça-feira é um bom dia para ir embora. Engraçado, mas durante toda a minha vida, nunca gostei muito da terça-feira. Talvez eu estivesse pressentindo...
- O senhor se arrepende de alguma coisa?
- Oh... De tantas coisas... De tudo aquilo que o pessoal sempre escreve nos livros de auto-ajuda. De tudo aquilo que deveríamos fazer continuamente e não fazemos. Me arrependo de não ter passado mais tempo com a minha família, me arrependo de não ter amado mais e de não ter dito àqueles que eu amo o quão grande é esse amor, me arrependo de não ter brincado mais com os meus filhos, de não ter tomado mais alguns banhos de chuva com eles e com a minha esposa... E de muitas outras coisas.
- Não quero parecer cruel, mas o senhor sente saudades de algo ou de alguém?
- De tudo e de todos. Nem fui embora ainda e já estou treinando para deixar gravado na minha memória as imagens do que foi bom e, porque não, do que foi ruim também. Parece que tudo agora é tão claro e parece que aconteceu tudo tão rápido. Posso até sentir meu cachorro puxando meus chinelos, querendo atenção. Posso sentir o cheiro gostoso do bolo de chocolate que a minha esposa fazia sempre. Posso sentir a emoção de ver meus filhos realizando seus sonhos. Mas não estou triste...
- Não parece triste... E, me permita dizer, não deve mesmo se entristecer. Deixou marcas profundas nas pessoas que lhe acompanharam e, pelo que posso observar, gravou em sua alma os sentimentos bons que as pessoas dedicaram ao senhor.
- Você parece saber muito mais do que eu a respeito de mim mesmo...
- O senhor sabe porque eu estou aqui?
- Não exatamente, mas posso adivinhar.
- E o senhor está pronto?
- Você responde essa...
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 23/06/2005
Código do texto: T27063

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
52 textos (3630 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 21:30)
Rafael Zanette