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Pecados? Que nada!

Se formos analisar fria e desapaixonadamente todas nossas ações do cotidiano, nenhum de nós vai ganhar o reino dos céus pela observância dos rigorosos Dez Mandamentos recebidos por Moisés na montanha.  Se não forem mudados ou aplicados segundo outros critérios, menos inflexíveis, vamos queimar nos Infernos, numa imensa pira coletiva, mesmo porque tanto é considerado culpado quem peca na prática quanto na intenção. Não vai escapar, igualmente, quem provoca a situação. Ilustrando com um exemplo atual: pegue-se o nono, aquele que proíbe a cobiça da mulher alheia.  Pense-se numa popozuda sazonal.  Vão para o orco em conjunto: ela, que aceitou a cobiça, o “proprietário” dela que a permitiu ser cobiçada, todos os que a cobiçaram, mesmo no papel ou nas telas...
Não bastassem esses dez, ainda inventaram os Sete Pecados Capitais.  Nossos mais puros impulsos humanos, de repente viram-se sob pesados regimentos e proibições.  Passou a ser transgressão ter Ódio – desde que não fosse por uma nobre causa.  A Avareza passou a ser vista como ruim – se as riquezas não fossem acumuladas em nome da religião. A Gula,  começou a ser vista como indesejável – ninguém explica banquetes que sucediam cerimônias religiosas. A Luxúria,  proibidíssima – atos sexuais só com o nobre propósito de procriação. A Preguiça, defeito seríssimo – quando entre a população pobre.  A Inveja, feiúra! – desde que o objeto invejado pertencesse a confrades e compadres. Orgulho –  indignidade! – altivez, amor-próprio podem levar às trevas...  E a Vaidade – uma afronta...
Homens e mulheres do mundo cristão, recebemos essas diversas e específicas instruções como base para desenvolvermos nossas relações. Foram-nos apresentadas, embora de forma rígida, suavizadas com o doce nome de ensinamento de preceitos morais. Se de um lado regulamentaram nossas atitudes, de outro castraram um bocado  a gente.
Rebelemo-nos! É importante sentir Ódio para provocar insurreições e elas, descobertas: passividade não é  ambiente propício ao desenvolvimento humano.  A Avareza é fundamental para a manutenção do espaço físico e psicológico onde pretendemos viver.  Convenhamos, não despertar a Gula significa reduzir o sublime ato da degustação à  pequenez de  satisfazer  a fome para sobreviver.  Impedir a Luxúria é bloquear uma satisfação íntima, uma possibilidade de prazer indescritível e tornar banal uma ocasião de profunda cumplicidade com outro ser humano.  Impossibilitar a Preguiça é endurecer-se e, pior, interromper o ciclo fortificante da saúde física e mental.  Afrouxar a Inveja é anular o vislumbramento de novos exemplos e ideais, é cegar-se. Neutralizar e deixar de expressar o Orgulho é  eliminar a auto estima, é desconsiderar-se como elemento importante na ordem das coisas do mundo.
E  tolher a Vaidade... isto sim é pecar!  É através dela que nos analisamos e nos aceitamos.  Admiti-la significa buscar padrões para nos tornamos melhor física e mentalmente. Temos ideais de beleza e bem-estar. Ora precisamos nos sentir parte de um grupo e achar a identidade necessária para essa integração: a vaidade nos abre essa possibilidade. Ora precisamos nos diferenciar e valorizar aspectos pessoais: a vaidade oportuniza essas descobertas.  Só a vaidade consegue nos levar à frente do espelho e permitir a sensação de amar -nos incondicionalmente...  Homens, pequemos! Afinal somos criaturas e criadores da nossa felicidade.
Lúcia Helena
Enviado por Lúcia Helena em 23/10/2006
Código do texto: T271820
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Sobre a autora
Lúcia Helena
Franca - São Paulo - Brasil, 72 anos
15 textos (823 leituras)
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Lúcia Helena