ATENDIMENTOS ESPETACULARES

Se houvesse um Ministério da Falta de Educação, certamente teria de atender a uma demanda muito grande. E duvido como não conseguiria atender todos que dele necessitassem.

Seria cômico, se não fosse trágico, mas a realidade nos submete a cada coisa. Com uma dúvida cruel pairando sobre minha cabeça, resolvi ligar para o Fórum de Justiça da minha cidade, a fim de tirar uma dúvida sobre Mandado de Segurança. Fui prontamente atendido, após cinco tentativas, por uma servidora muito eficiente. Cumprimentei-a e fui direto ao ponto: “- Quais são os requisitos para impetrar um Mandado de Segurança”, perguntei. Mal terminei de falar e a servidora respondeu com muita confiança: “Joga no Google e faça a pesquisa, então você vai saber”.

Sei que o Google é excelente em matéria de pesquisa, mas não sabia que ele tinha virado advogado ou servidor judiciário. O pior é que eu fui dá uma de muito esperto, e ligar justamente para o Fórum de Justiça – sendo que poderia ter estudado antes, fiquei arrependido. Mas aí eu pensei no fato de a escola não nos oferecer um estudo, ainda que superficial, sobre leis, Constituição Federal, Código de Defesa do Consumidor, entre outros. Pensei também no fato de ter passado a vida inteira estudando outras áreas. E reconheço: fui um preguiçoso. Eu não podia ter incomodado a servidora do judiciário com perguntas bobas. A moça perdeu dois minutos do seu precioso tempo me dando dicas de como fazer uma pesquisa e conseguir uma informação, já era grande coisa. Até pensei de ligar novamente só para saber quais das fontes era segura para que eu pudesse ter as informações corretas, mas resolvi não arriscar! Pelo jeito que ela tava, era bem capaz de eu terminar a ligação com a necessidade de estudar sobre Habeas Corpus e/ou liberdade provisória, com ou sem fiança. E como mais vale um Mandado de Segurança no Google, que um Habeas Corpus voando, resolvi recolher-me à minha insignificância e fazer as pesquisas.

Persistindo no erro de querer levar mais dignidade às pessoas (começando por mim), fui tentar resolver outro problema, de maior gravidade. Se bem que esse não depende muito de mim, nem do Google, mas ainda assim, eu assumo a culpa!

Liguei para o SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Balsas, cujo nome mais apropriado deveria ser SASAE (Serviço Autônomo Sem Água e Esgoto) a fim de resolver um problema que vinha acontecendo todos os dias na minha residência (e creio que na maioria das casas de minha cidade!). O problema é que o abastecimento de água em minha casa é pontual e regular: a água chega pontualmente às 23h00 da noite, e falta pontualmente às 6h00 da manhã; esse processo ocorre, regularmente, todos os dias. Tudo bem que assim eu economizo água, ajudo a melhorar o planeta (por um lado, porque as pessoas reclamam do mau cheiro de uma pessoa que não banha), e acontece um monte de coisa boa. Só que nesse caso, eu economizo água, mas consumo muita energia: pelo fato de ter que esperar a água chegar altas horas da noite. Até pensei de sugerir a eles que ao invés de liberar a água regularmente das 23h00 às 6h00, que liberassem das 6h00 às 23h00 – é muito mais humano e agente não tinha que usar muita energia. E mais, o calor aqui é tamanho que a maior necessidade que temos de banhar ocorre justamente no horário oposto ao do funcionamento regular da água. O pior é que de vez em quando agente sente uma vontade tão boba de beber e banhar que temos a sensação de que, se não a realizarmos, iremos morrer. Mas não passa de um pensamento bobo, ninguém morre de sede ou por falta de banhar, exceto se não ficar esperando chegar 23h00 para tomar um pouco de água (suja) e, enfim, passar a vontade besta de beber ou banhar.

Ao assunto: era mais ou menos 12h00 do dia, quando uma dessas necessidades bobas (beber ou banhar) me atormentou ao ponto de pegar o telefone e ligar para o serviço (sem serviço) acima mencionado. Dessa vez, confesso, a carne foi fraca. Ao ser atendido, informei que na minha casa não tinha abastecimento de água e até achei que tinha o direito de pedir para que o problema fosse solucionado. Fui logo dizendo que a conta d’água era infalível, que eu nunca havia deixado de pagar uma conta sequer, que precisava de água todos os dias, e um monte de coisas que, sem água, seriam trágicas para a irrelevante pessoa do lado sofrido do telefone. O golpe baixo não teve sucesso, e o servidor, com excesso de sinceridade, foi logo dizendo: “Você tem que comprar uma caixa d’água.” Confesso que nesse momento vi um oásis de decepção na minha frente. Não sei se o sentimentalismo era causado pela ausência total de água ou se era o simples fato de saber que estava pagando um produto/serviço dos quais eu não dispunha. E a despeito da resposta do servidor ter me causado reações indesejáveis, a sinceridade é libertadora: liberta você para comprar uma caixa d’água, se quiser banhar ou beber.

Por várias vezes pensei em retrucar, alegando que não havia cláusulas no contrato de prestação de serviço que estabelecessem que todos os usuários deveriam comprar uma caixa d’água, caso quisessem utilizar-se desse produto. E o desespero era tanto que me bateu também uma vontade de aplicar mais alguns golpes de misericórdia, ideia que resolvi abandonar, deixando de lado esses desejos fúteis (banhar e beber). Além do mais, esses luxos podem muito bem ser ignorados (ou não?!). Mesmo assim, não quis insistir no assunto, sob pena de ter que comprar um poço artesiano, o que, diga-se de passagem, ficaria muito mais caro.

Naquele momento, nada melhor que um bom banho e um bom copo de água para me dar ânimos para estudar as trezentas páginas do Manual do Mandado de Segurança. Esse desejo não passava de um sonho para mim. Pelo menos uma coisa me deixa mais aliviado: o servidor, o diretor, o prefeito, o juiz, o promotor, entre outros, possuem caixa d’água em casa – o que significa que nem todo mundo passa por esse sofrimento. Mas não é por nada não, mas torço tanto para que o servidor, o prefeito e o diretor, pelo menos, liguem para o Fórum de Justiça para tirar uma dúvida qualquer. Espero também que sejam atendidos pela mesma servidora que me atendeu. E a servidora também deveria ligar para o SAAE!

Vou ali tomar um banho! Aliás, vou ler sobre Mandado de Segurança!

A Ismael
Enviado por A Ismael em 25/01/2011
Reeditado em 17/02/2011
Código do texto: T2751953