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Nuvem Negra


Tinha começado tudo errado. O céu estava nublado, a chuva tinha molhado as pernas da calça e alagado o tênis, antes, recém-lavado. Para piorar, o vento fez o guarda-chuva virar bem na hora da descida do ônibus, aliás, lotado como sempre e cheio de gente estranha, falando alto da vida alheia.

No caminho para o trabalho, que ainda tinha um quilômetro para ser feito a pé (molhado!), eis que surge ao lado, assim, meio no susto, aquele colega inconveniente dos tempos de infância. As primeiras frases não poderiam ser diferentes:

- E aí? Beleza? Então, como está a vida? Namorando? Trabalhando muito?

- Uhum, uhum, uhum, uhum, responde.

- Mas, e aí, quais as novidades, hein?

- Digamos que, nenhuma que eu lembre agora, responde de novo completando: tenho que entrar nesse banco. Valeu?! Tchau!

Na entrada no banco, o detector de metais trava e quase quebra o nariz. O guarda vem e diz:

- O senhor deve estar sendo travado por causa das chaves, coloque aqui, apontando para um compartimento de acrílico transparente.

O primeiro pensamento que assume a mente é mandar o tal do segurança para o quinto do inferno, virar as costas e ir embora. Releva, tenta outra vez e entra.

Na fila do caixa eletrônico, o papo parece o mesmo do ônibus.
 
- Nossa, será que as mesmas pessoas estão sempre nos mesmos lugares, pensa repentinamente.

A conversa fica nas reclamações sobre a demora do sistema, sobre o dia de chuva, no último escândalo na política, nas pernas da Vera Fischer, no capítulo da novela, na previsão astrológica. Ah, pois bem, ela indicava que hoje seria um dia difícil, mas, tudo iria ficar após o entardecer.
 
- Bom dia, posso ajudar? pergunta a mulher de guarda-pó justamente com a frase “Posso ajudar?”

- Bom dia (que dia? imagina se fosse ruim, pensa!). Quero pagar essa conta aqui.

- Senhor a sua conta está em processo de atraso. O senhor deve estar se dirigindo para o caixa.

- Ãh, como assim? O dia de vencimento foi ontem, domingo! exclama.

- Mas, é que senhor, essa conta é gerada pelo governo federal, todas desse tipo deve estar sendo pagas com antecedência quando o vencimento é nos finais de semana. explica.

- Ah, tá..quer dizer que ..... (pára, pensa e vai embora enfiando a conta no bolso)

A um passo da porta do escritório, com as pernas da calça encharcadas, o guarda-chuva virado, e a conta vencida no bolso, a recepcionista grita:

- Bom dia! Como está passando o senhor?

Ele entra e só murmura:

- Oi, Mery.

Quando finalmente senta na cadeira, em frente à mesa cheia de papéis, o telefone toca. É a telefonista dizendo que uma tal de Nanci não sei do quê, queria falar não sei do quê.

- O senhor vai estar atendendo? pergunta

- Passa! responde.

- Bom dia, senhor! Eu sou Nanci Abraão da Central de Relacionamento da JGM Telecom. Estou telefonando para o senhor, para estar oferecendo uma promoção exclusiva e apenas para clientes como o senhor.

- Mas, que diabos de cliente sou eu? pensa.

- O senhor pode estar assinando a banda larga na sua casa por apenas R$ 89,90 por mês. E ainda, o senhor pode estar ganhando o modem grátis, se me der algumas informações para eu estar efetuando o seu cadastro agora.

Em um ato de ódio profundo, colocou o telefone entre as mãos e ameaçou lança-lo contra a parede. Porém, duvidou da própria energia para acabar aquele ser que teimava em tirá-lo do estado de inércia. Decidiu então, apenas interromper a ligação colocando o fone no gancho.

Dez minutos se passaram, havia começado a arrumar a montoeira de papéis sobre a mesa quando o mesmo aparelho toca mais uma vez. A recepcionista novamente esquece de saber quem solicita a atenção e qual seria o assunto. Na dúvida atende.

- Bom dia, senhor! Sou a Débora de Almeida da Central de Relacionamento do Banco TWI. Estou telefonando para o senhor para estar oferecendo a possibilidade de o senhor estar ingressando nos nossos cadastros para poder estar recendo o nosso cartão de crédito.

Em outro ato de raiva, o telefone quase é atirado de encontro à cadeira. Respira fundo, conta até dez e recomeça o trabalho. Sem querer, a pilha de papéis amontoados sobre a mesa começa a desmoronar e todos os documentos caem no chão e se misturam. Solta simplesmente um grito de ódio intenso e fita o céu, implorando para que aquele dia termine logo.

Enquanto se abaixa e separa o material de cada cliente, tenta cantarolar alguma canção. A única coisa que vem à cabeça é o refrão: “fuma, fuma, fuma, folha de bananeira”. Ele inicia a partir de então uma luta digna de uma terceira guerra mundial com a própria mente. Odeia, ignora, marginaliza até, essas frases, mas, elas não o deixam em paz. Tenta lembrar quaisquer outras para substituí-las. De nada adianta, a canção se tornou soberana.

É nesse momento que o telefone toca mais uma vez. A recepcionista/telefonista comete o mesmo erro de antes. – As pessoas não devem ter assunto, muito menos nome”, pensa.

- Bom dia, senhor! Meu nome é Maria da Silva, sou da Central de Relacionamento do Banco Capital. Ofereço para o senhor a possibilidade de ser o nosso novo cliente preferencial. O senhor pode estar me passando os seus dados e eu estarei colocando o senhor nos nossos cadastros. Em menos de um mês o senhor vai estar recebendo um cartão em casa, e então, poderá estar entrando em contato com a gente para estar confirmando a sua conta.

- Chegaaa!!!! Ele grita, atira o telefone em direção à janela do 15º andar, pisa sobre os papéis jogados no chão, bate as portas da sala, do escritório, do elevador, e vai embora.

Kelly Erdmann
Enviado por Kelly Erdmann em 28/10/2006
Código do texto: T275591
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Sobre a autora
Kelly Erdmann
Jaraguá do Sul - Santa Catarina - Brasil, 33 anos
10 textos (281 leituras)
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Kelly Erdmann