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APARÊNCIAS

                                            Há poucos dias, foi manchete de contracapa do jornal Zero Hora a história da solidão de Lucas. Lucas, zebra macho do zoológico de Pomerode-SC, para não entrar em depressão, ganhou a companhia de uma jumenta branca pintada com listras pretas.Os veterinários disseram que a reação de Lucas foi imediata. A zebra, antes entristecida, inquieta e sem alimentar-se, rapidamente mudou seu comportamento. Mesmo em currais separados, os animais, diferentes, mas parecidos, curtem um a companhia do outro. Parecem irmãos, mas não são.  Até a próxima chuva.
                                  Na mesma semana, o mesmo jornal noticiou um caso raro na genética. A inglesa Kerry Richardson deu à luz gêmeos diversos: um loiro como o pai e outro moreno como a mãe. “Logo que eles nasceram, conta a mãe, ninguém percebia nada de diferente, eles eram praticamente da mesma cor. Mas nos últimos meses, Layton ficou ainda mais claro e loiro, Kaydon ficou mais escuro como eu”.  Layton e Kaydon não parecem irmãos, mas o são.
                                   Sociólogos, antropólogos e psicólogos já se esforçaram muito para entender as afinidades humanas. Sob quais características se embasam identidade e diferença, por qual razão escolhemos nossos amigos e amores, quais os motivos da repulsa ou atração. A sabedoria popular já cunhou aprendizagens: “diga com quem andas e te direi quem és”, “o essencial é invisível aos olhos”, “quem vê cara não vê coração”, “as aparências enganam”.  Na organização política da sociedade ou entre os amantes as metáforas zebra/jumenta e Layton/Kaydon produzem ensinamentos essenciais. O que parece igual pode não ser, o que parece diferente também não.
                                     A metáfora da zebra e da jumenta talvez seja mais aplicável à esfera política. Inclusive tomada cada parte individualmente. Pintar-se com a cor do eleitor é o desejo mais profundo de qualquer político. Durante o mandato, vem a chuva e a tinta se apaga. Mas aí, como já houve aquele enamoramento, a gente acaba gostando da jumenta, embora de listras falsas. Se eu falar do amor, então, a metáfora ganha nova roupagem. No início, para seduzir e encantar, cada amante se pinta com o colorido do outro. Mentem gostos, gestos, ideais. Quando a sedução consumou-se, é hora da chuva. As listras desbotam, mas o vínculo já está consolidado.
                                        Layton e Kaydon exigem perspicácia aos olhares. Na política, por exemplo, diferenças aparentes podem não ser tão antagônicas. Quem tem olhar mais agudo, percebe equivalências sob as aparências. A lição do gêmeos ingleses aplicada ao amor permite, me parece, relacionamentos mais duradouros. Quantos casais tão diferentes zanzam por aí estáveis e felizes. Transpor o superficial aprofunda o conhecimento do outro nas matérias mais íntimas. Layton e Kaydon parecem filhos de pais diferentes. Mas se fizermos um DNA, descobriremos que o pré-conceito nos engabelou.
                               A etimologia da palavra inteligente - ao menos a que tenho conhecimento - significa “ler o interior”, desvelar o cerne além da casca. Considerando que nos orgulhamos por sermos o mais inteligente dos seres, jamais poderíamos ter juízos superficiais nem na política, nem no amor. Da primeira depende nossa sobrevivência; do segundo nossa felicidade. Estar vivo e feliz é o mais essencial!


Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 29/10/2006
Código do texto: T277074
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5110 leituras)
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