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Manifesto de um texto engavetado

Eu sou um texto! Eu existo! Não sou um ninguém! Sou alguém! Um sujeito de direito! Não um objeto qualquer, para conformar-se em viver trancafiado no fundo de uma gaveta.

O sentido do meu existir, é o de ser lido! No entanto, fico aqui: inédito, esquecido, desprezado, descriminado, cativo, trancafiado, enclausurado; sinto-me natimorto, abortado, rejeitado...

Outros textos passaram por essa velha gaveta, com ar emproado, gabavam-se de terem sido escritos num tal de computador, que no meu tempo nem existia, eu nasci numa máquina de escrever, que dizem nem mais existi. Passaram por aqui também, uns textos gente boa, que mesmo vindos do tal computador, não eram metidos a besta. Esses me contaram de uma tal internet, onde os textos viajam o mundo inteiro, vão e vem sem limitações, são lidos em todo o planeta...

E eu aqui, exilado numa gaveta, com duas bolinhas de naftalina, algumas contas velhas, uns grampos, alguns clipes e outros cacarecos. Vez por outra é que aparece um textinho menos desafortunado, para me dar essas notícias das modernidades e das coisas: o muro de Berlin caiu, a guerra fria acabou, acabou a ditadura, só não acaba a minha prisão! Será que nunca vai surgir uma “Associação dos Textos Desvalidos”?

Acho que por conta disso tudo, essa noite sonhei um troço esquisito: meu autor, finalmente tinha tomado vergonha e me tirado da gaveta, ele me colocava numa máquina estranha, com uma luzinha que me fazia cócegas (dizia ele que estava me digitalizando), de repente, me senti fora do meu papel amarelado e dentro de uma coisa parecendo uma TV, depois me senti sendo lido em vários lugares ao mesmo tempo, era uma sensação gostosa, de vida e liberdade que só lembro ter sentido quando fui escrito.

Ser lido, inundava o meu ser de uma plenitude insólita, me sentia importante, útil, o sonho parecia não ter fim, parecia eternizar o prazer de um pobre texto, por tanto tempo perdido nas masmorras do esquecimento... Tudo ia bem, até que você me acessou... ... Você??? Acessou??? Como???

Antonio Pereira (Apon)
http://www.aponarte.com.br
Antonio Pereira APON
Enviado por Antonio Pereira APON em 03/11/2006
Reeditado em 14/07/2010
Código do texto: T281261

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Sobre o autor
Antonio Pereira APON
Salvador - Bahia - Brasil, 52 anos
158 textos (33943 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 16:48)
Antonio Pereira APON