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Nenhuma imagem forte do vôo

Há alguns dias aconteceu um acidente de avião – quem não ficou sabendo? Há alguns dias começaram a circular imagens dos corpos das vítimas – quem ainda não viu?

A tragédia chama a nossa atenção, desastre é uma coisa boa de ver. É tão boa que a gente quer ver não importa a que preço, pode ser ao preço da vida, pode ser ao preço da morte. Pode também ser ao preço do amor que devemos – ou que deveríamos dever - aos anônimos que foram os protagonistas do desastre, não importa de verdade, o show deve continuar. Claro, tudo ao preço dos anônimos, porque se aconteceu na nossa esfera de vida e convivência, perde um pouco a graça. Mas se puder haver qualquer vínculo com um desses anônimos, na medida em que eles se tornam mais reais, mas continuam anônimos, melhor ainda. “Eu conheci um conhecido que conhecia um cara que morreu.” Isso te confere um status melhor ainda no teatro da vida e da morte: você assistiu de camarote!

Aí acontece um acidente de avião, aí começa a circular imagens da tragédia. Quem não quer ver? Importa se aquelas pessoas eram, de fato, pessoas? Importa se elas tinham gente para as quais elas não eram anônimas? Quanta bobagem! O que importa é que aquela gente vire para nós o espetáculo! Era seu irmão, era sua mãe, era seu parente? Perdão se não pude sacrificar minha curiosidade e meu espanto em nome de coisas insignificantes como a santidade da imagem de uma pessoa. É, a gente se corrompe muito fácil. A gente corrompe o respeito a tudo, pra satisfazer uma curiosidade.

Talvez eu esteja errado, talvez não seja nada disso... Mas não quis abrir o e-mail com as imagens fortes do acidente. Que a morte de gente inocente não se torne meu circo de horrores, e na minha incapacidade de fazer qualquer coisa, seja meu tributo como ser humano a outros seres humanos sorteados para a tragédia, meu respeito e meus olhos fechados para a exploração do que um dia foram pessoas que se foram.

Meus sentimento àqueles que tiveram suas vidas transtornadas pelo acidente. Saibam que um anônimo chorou por vocês.
Regis Camimura
Enviado por Regis Camimura em 05/11/2006
Código do texto: T282981

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Sobre o autor
Regis Camimura
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 34 anos
21 textos (4201 leituras)
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